Margarida Tengarrinha
ENTREVISTA

Margarida Tengarrinha: De falsificadora a secretária de Cunhal

Com um frescor notável aos 93 anos, a partir do seu apartamento na Praia da Rocha , a algarvia Margarida Tengarrinha conta ao JA o seu papel na clandestinidade como militante antifascista. Casada com o escultor Dias Coelho, assassinado pela PIDE em 1961, hoje companheira do também militante do PCP Carlos Costa, Margarida relata os dramas políticos da infância e juventude, a partida a salto para Moscovo – onde Álvaro Cunhal a aguardava – e o seu papel na clandestinidade, onde durante anos falsificou identidades e chapas de bicicletas. De resto, o seu último livro, autobiográfico, leva por título “Memórias de uma Falsificadora”

JORNAL do ALGARVE (J.A.) – Diz-se habitualmente que o 25 de abril de 1974 não se limitou a ser um golpe de Estado. Foi uma verdadeira revolução social, cujas ondas de choque se multiplicaram por alguns anos. E isso resulta da tomada de consciência das vanguardas populares, com os lutadores contra o regime a terem um papel preponderante…

Margarida Tengarrinha (M.T.) – Sem dúvida! O apoio popular massivo ao 25 de abril de 1974 só se concretizou daquela forma como resultado de uma forte consciencialização nascida ao longo das lutas populares reivindicativas e políticas da resistência antifascista, durante os 48 anos de fascismo em Portugal. O levantamento militar revolucionário do Movimento das Forças Armadas, que teve imediatamente o apoio de grandes movimentos populares por todo o país, pode ser chamado de Revolução de Abril devido precisamente a esse poderoso apoio popular.

J.A. – Qual é a primeira memória política que guarda da sua infância e adolescência algarvia?

M.T. – Com os meus 93 anos, posso recordar uma das primeiras e importantes lutas desencadeadas na minha terra, Portimão e em várias outras localidades do Algarve. Refiro-me ao movimento do 18 de janeiro de 1934, que teve lugar em vários centros operários do país.

J.A. – Se não me falham as contas, tinha apenas seis anos…


M.T. – Sim, tinha seis anos de idade ainda incompletos. As janelas da minha casa davam para o largo, então chamado “do coreto”, hoje com o nome de Manuel Teixeira Gomes, no centro de Portimão. Da janela vi o largo encher-se de gente, uma multidão que protestava em altos gritos, com palavras que eu não entendia. Mas conhecia algumas daquelas mulheres e homens, operárias conserveiras e pescadores, pais dos miúdos com quem brincava no cais, ali perto de casa. Debruçava-me na varanda para entendê-los, quando da esquina surgiu uma força da GNR a cavalo, que entrou pela multidão adentro, agredindo com chicotes e pisando aquelas pessoas que fugiam, espavoridas.


J.A. – Foi um trauma para a vida, na mais tenra idade…


M.T. – Foi uma sensação de terror que nunca mais esqueci. E por isso, ao longo dos anos, até à minha juventude, procurei saber a razão do que tinha presenciado, nos meus seis anos incompletos. Tratava-se do movimento de 18 de janeiro de 1934 contra o encerramento dos sindicatos livres dos trabalhadores, grande parte dos quais tinham sido criados depois da Revolução Republicana de 1914.

J.A. – E o que foi esse movimento?

M.T. – Salazar, que então já era presidente do Conselho de Ministros, impôs os princípios orientadores da Organização Corporativa Portuguesa em 1933 que, entre outras normas, dissolvia os sindicatos livres dos trabalhadores criando em seu lugar os sindicatos nacionais cujas direções seriam manobradas pelos interesses patronais. Copiou a orientação fascista que o seu amigo Mussolini tinha instituído em Itália. As lutas da classe operária já se estavam a desenvolver em todo o País e no Algarve agitavam fortemente o movimento operário, com greves dos pescadores, trabalhadoras das conservas, operários corticeiros de Silves e Faro. Essas lutas agudizaram-se com a tentativa de liquidação das suas organizações de classe.


J.A. – Foi um episódio que marcou as suas opções políticas futuras?


M.T.
– Sim. Recordo o meu orgulho de portimonense quando, já jovem contestatária contra o regime, os meus amigos me contaram lutas em que vinham participando ou de que tinham conhecimento pelos seus pais, como aquela enorme manifestação que em 1931 se tinha realizado no largo da estação do caminho ferro de Portimão, quando um jovem operário comunista levantara uma bandeira vermelha, gritando palavras de incitamento à luta por pão e trabalho.


J.A. – Essas lutas foram importantes para desgastar o regime?


M.T. – Foi este crescendo de lutas que deu origem à consciencialização do que significava para os trabalhadores a eliminação dos seus sindicatos livres que os defendiam. A palavra de ordem dos sindicatos de orientação anarquista e comunista, de uma greve geral no dia 18 de janeiro, teve larga repercussão nos meios operários. Depois houve dificuldades de organização e de coordenação, que impediram que essa greve geral se realizasse à escala nacional. Mas em muitos centros operários, como na Marinha Grande, em que os operários vidreiros tomaram conta da vila, ela foi um sucesso, de tal modo que a repressão policial teve enorme violência.


J.A. – No Algarve a consciência de classe e as lutas antifascistas começam então a despontar, sempre na
clandestinidade…?


M.T.
– Sim, nessa altura, no Algarve, realizaram-se muitas reuniões preparatórias, mas nem em todas as localidades as greves e manifestações se efetivaram. Estas ações de contestação operária (segundo fui informada) tiveram maior incidência em Portimão, Silves e Messines, embora em Vila Real de Santo António se tivesse também esboçado um movimento de contestação.


J.A. – Com essa frustração de intenções desse movimento, como reagiu o regime de Salazar? Houve represálias?


M.T.
– E de que maneira! Depois do fracasso do 18 de janeiro, a fúria repressiva da ditadura fascista abateu-se sobre os operários das zonas onde teve maior incidência, como na Marinha Grande e no Algarve, particularmente sobre comunistas e anarquistas. Largas dezenas de presos foram torturados e enviados primeiro para a fortaleza de Angra do Heroísmo e a seguir para o Campo de Concentração do Tarrafal, em Cabo Verde, que foi chamado “Campo da Morte Lenta”, que eles iriam inaugurar juntamente com outros, já prisioneiros nos cárceres fascistas. Quando celebramos a liberdade conquistada em 25 de Abril, é justo recordar aqueles que, ao longo da ditadura fascista, contribuíram para essa libertação.


J.A. – Teve a infância e parte da adolescência no Algarve, mas depois foi estudar para Lisboa e só regressa nos anos
80, não foi?


M.T.
– Sim, em Portimão só havia liceu até ao terceiro ano [atual 7.º ano de escolaridade] e a partir do 4o ano estive no Pedro Nunes, até ao 7.º, e depois estive nas Belas Artes, tudo em Lisboa. Vinha a Portimão em férias.


J.A. – E como se dá a entrada da sua vida na política?
M.T.
– A minha primeira atividade política foi no dia 8 de maio de 1945, quando se realizaram grandes manifestações de alegria e regozijo pelo fim da guerra. Estava eu ainda no Pedro Nunes, no 7.º ano, e nessa altura nós saímos – contra a vontade do reitor – pelas traseiras do liceu para nos integrarmos na grande manifestação que correu lisboa e levava as bandeiras dos países aliados (EUA, Inglaterra e França) e um pau sem bandeira que representava a da União Soviética.
A manifestação era de alegria pelo fim da guerra e também de regozijo da vitória dos países democráticos contra o nazismo alemão. Era também uma manifestação contra o Salazar, cujo principal aliado era a Alemanha nazi.


J.A. – Como se dá depois a entrada na militância política?


M.T.
– Nas Belas Artes tive atividades pela paz. O fim da guerra assinalou a luta pela paz e pelo desarmamento nuclear. As bombas atómicas de Hiroxima e Nagasaki mostravam um futuro sombrio para o mundo e para a juventude.


J.A. – E depois como entra no PCP?
M.T.
– Foi em 1952, quando fui expulsa das Belas Artes como aluna e como já era professora de educação visual – porque já tinha o bacharelato – fui expulsa da escola Paula Vicente. E foi essa expulsão pela PIDE que determinou que eu sentisse que tinha um lugar especial na luta, no único partido que fazia frente ao fascismo, o PCP.


J.A. – E é aí que entra na clandestinidade?


M.T.
– Não. Primeiro fui membro do PCP com tarefas como o apoio aos presos políticos. Era uma comissão. E a seguir fomos convidados (entre eles eu e o meu companheiro, o José Dias Coelho, de quem já tinha uma filha) a entrar na clandestinidade. E entrámos em 1955. Dez anos depois de ser membro do partido.


J.A. – Entrar na clandestinidade significa deixar de ter um emprego?


M.T.
– A clandestinidade era muito rigorosa. E significa que nos tornamos militantes ativistas do PCP na clandestinidade, isto é, com nomes falsos, moradas diferentes, com a nossa identidade mudada, para continuar a luta, fugindo à repressão da PIDE.


J.A. – E o que fazia profissionalmente?


M.T.
– Como entrámos na clandestinidade quando eramos alunos de Belas Artes tivemos uma tarefa específica, que era ser falsificadores de Bilhetes de Identidade, passaportes, licenças de bicicleta, cartas de condução, identificações como sindicalistas. Fazíamos documentação com nomes diferentes para que os clandestinos pudessem andar pela rua e se fossem abordados mostrarem uma identificação que não era a deles.


J.A. – Tudo isso em Lisboa. E depois como se dá a sua ida para Matosinhos?


M.T.
– Depois do assassinato pela polícia política do [escultor] José Dias Coelho, o pai das minhas filhas, no dia 19 de dezembro de 1961, na rua que hoje tem o nome dele, em Alcântara. Depois fui para Moscovo trabalhar como secretária do camarada Álvaro Cunhal. Depois desse trabalho, fui para a Rádio Portugal Livre como redatora, em Bucareste, Roménia. Em 1968 pedi para regressar a Portugal, regressei e a minha tarefa foi membro da comissão de redação do jornal Avante.


J.A. – Como entrou em Portugal vinda de Moscovo? Foi complicado?


M.T.
– Foi tão complicado como a ida. A ida ainda foi mais complicada porque para ir para Moscovo fui clandestinamente com uma filha que tinha dois anos incompletos, por montes e vales, clandestinamente. Sem passar pela fronteira.


J.A. – Foi literalmente a salto…


M.T.
– Claro, como qualquer outro emigrante clandestino. E com um passador, que também passava emigrantes. Para cá também entrei clandestina, por outra fronteira. Sempre sem passar pelo posto da PIDE.


J.A. – Chegou a ser presa?


M.T.
– Não. Estive muito perto de ser, mas consegui fugir.


J.A. – Como foi a sua experiência no 25 de abril de 1974?


M.T.
– Eu morava em Matosinhos, com o Carlos Costa, dirigente do partido que era responsável por 10 distritos do Norte do País. trabalhava com ele desde 1970, quando nos tornámos companheiros. Estava em Matosinhos quando ocorreu o 25 de abril. Estava numa casa clandestina, com nome falso, nos meus 45 anos, à beira dos 46. A minha primeira saída depois do 25 de abril foi no dia 27, dois dias depois, que atravessei o Largo do Coreto, em Matosinhos. E estava a ocorrer um comício e eu aproximei-me. Aproximei-me do coreto e disseram-me “Olhe, quem está lá em cima é o jornalista César Príncipe”. E estava um membro do Partido Socialista, um do PPD, etc. E eu perguntei: “Não está lá nenhum membro do Partido Comunista?”. E então gritei para o César Príncipe: “Eu também quero falar!” e ele perguntou: “E quem é a senhora?!” e eu disse “Sou Margarida Tengarrinha!”. E ele disse “Ahhh!”, reconheceu o meu nome e conhecia o meu irmão [José Manuel Tengarrinha] e disse “Sobe para o coreto que vais falar!”. E foi a minha primeira intervenção política, pela mão do César Príncipe, que ainda hoje se gaba dizendo “foi pela minha mão que saíste da clandestinidade e que readquiriste o teu nome verdadeiro!”.


J.A. – E o seu PREC [Processo Revolucionário em Curso], foi muito agitado?


M.T.
– Como membro da Direção Regional do Norte [do PCP] e como membro da direção fui designada para ir para Trás-Os-Montes. E em Ribeira de Pena apanhei uma carga de pancada de uma data de gente da reação, num sítio em que havia muita gente reacionária, que me atacaram para eu não falar quando fui candidata à Assembleia Constituinte pelo distrito de Vila Real, em 1975.


J.A. – Chegou a ser deputada, mas foi depois.


M.T.
– Sim, fui deputada, mas não pelo distrito de Vila Real. Fui deputada pelo Algarve, na segunda e terceira legislaturas.


J.A. – Então, em 1987, regressou ao Algarve


M.T.
– Sim, regressei ao Algarve porque fui deputada. Depois do 25 de abril houve uma legislação para delegar as legítimas expectativas que os que foram expulsos ocupavam na altura das expulsões. E fio assim que muitos militares voltaram ao ativo, que muitos professores também, como foi o meu caso. Comecei a dar aulas. Mas como era deputada estava destacada para a Assembleia da República. E eu quando deixei o parlamento tive que regressar ao meu trabalho de professora e foi nessa altura que regressei ao Algarve, como professora de educação visual em Portimão.


J.A. – E nunca mais saiu do Algarve…


M.T.
– Sim, fui colocada no Algarve, e tive a vantagem de ser algarvia e querer regressar à minha terra.


J.A. – E vive na Praia da Rocha, com uma vista linda sobre o mar, onde dá uns mergulhos…


M.T.
– Agora já não nada tanto, há uns anitos nadava 30 a 40 minutos.


J.A. – O que significa o 25 de abril, para si?


M.T.
– Liberdade.

João Prudêncio

(Entrevista publicada no Jornal do Algarve de 22 de abril de 2021)

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