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Nova associação de Vila Real de Santo António aposta na inclusão social através das artes

Neuza Monteiro, Miriam Brito, Bia Romão e Pedro Reis

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Projeto arrancou há menos de um ano, com pouco mais de uma dezena de crianças e jovens, e já conta com cerca de meia centena de participantes. Começou como um projeto social, e ainda não perdeu esse cariz, mas já envolve outros intervenientes que também querem descobrir e desenvolver os seus talentos

DOMINGOS VIEGAS

Chama-se Free Project, nasceu em junho do ano passado em Vila Real de Santo António como um grupo informal, mas, hoje, já tem o estatuto de associação. Um dos pilares da sua criação foi a inclusão social de jovens através das artes, porém, atualmente, e em poucos meses, o seu campo de ação foi alargado e já tem as portas abertas a todas as crianças e jovens que pretendam desenvolver o seu talento e as suas capacidades artísticas.

Entre as atividades que são proporcionadas diariamente estão a música, a dança, a gravação musical, a criação de vídeos (musicais e, brevemente, as curtas metragens), o trabalho de som e de luz, tanto para gravação como para espetáculos, entre outras áreas. Não é cobrado qualquer valor. Basta ter vontade de aprender e de dar asas ao talento.

“Começámos com crianças e jovens do centro de acolhimento da Santa Casa da Misericórdia e o objetivo é envolve-los em atividades artísticas, despertando as suas capacidades e talentos. Fizemos uma triagem para perceber quais os gostos e os talentos de cada um e traçámos um plano artístico para cada um deles”, explica Pedro Reis, coordenador de atividades da Free Project. Este membro da direção, e um dos fundadores, trouxe a ideia de Itália, na altura em que participou num projeto de inclusão social através das artes, no âmbito do Erasmus, e, junto com Neuza Monteiro, atual presidente da associação, reproduziu-a na cidade pombalina.

Na Free Project, a arte é colocada ao serviço sem que estes tenham que fazer o percurso artístico. “Aqui, tentamos despertar o interesse deles para as artes e tentamos contribuir para que estejam ocupados e a fazer o que gostam. A maioria não tem dinheiro para estar numa escola de dança, num conservatório ou para pagar um espaço para tocar ou gravar músicas… Aqui têm essa possibilidade porque é tudo gratuito”, prossegue aquele responsável, que é também músico e está envolvido em três bandas, entre elas os In Tento Trio.

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Os jovens dos centros de acolhimento têm, na sua maioria, um passado complicado a nível familiar e, muitos, apresentam também alguns problemas comportamentais. De uma forma geral, a integração social não é fácil. Porém, Pedro Reis explica, e garante, que as artes ajudam no processo de integração.

“Inicialmente, disseram-nos que se conseguíssemos que um deles se interessasse verdadeiramente por alguma atividade, e prosseguisse, já seria muito bom. Mas, afinal, conseguimos muito mais do que isso. O nosso método consiste em fazer triagens constantes para que eles experimentem áreas diferentes, até que encontrem aquela que gostam, a que se interessem e onde se sintam bem”, conta aquele coordenador de atividades.

E dá exemplos: “Uma das jovens já escreve letras e compõe, os jovens que se dedicam ao som gravaram aqui um dos temas e os da área da imagem criaram um videoclipe para uma das suas músicas. E já atuou algumas vezes, por exemplo, em festas de Natal. Outro dos jovens chegou aqui sem ter tido qualquer contacto anterior com a música e em poucos meses já tocava piano. Foi ele que acompanhou ao piano o tema da jovem que referi anteriormente. Há outro jovem que também não tinha qualquer conhecimento de música e hoje faz “beatbox” [percussão vocal do hip-hop] e também já atuou nalgumas festas”.

Também é verdade que não há 100 por cento de casos de sucesso, já que alguns desmotivam-se e acabam por abandonar, no entanto Pedro Reis mostra-se satisfeito com os resultados e garante que “a arte funciona” nestas situações.

“A arte coloca-os de igual para igual com os outros jovens. Aqui não interessa quais são as suas condições económicas ou sociais, o que prevalece é o seu talento. O nome Free Project não surgiu só porque é gratuito, também significa que é livre. Livre de preconceitos sociais. Quando eles estão a cantar, a dançar ou a tocar não se vê quem é do centro de acolhimento e quem não é. E isso é o que lhes faz bem. A arte tem essa característica”, sublinha.

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Mais do que um projeto social

Em pouco tempo, e impulsionada pelo sucesso deste projeto com jovens do centro de acolhimento, a Free Project teve que abrir as portas a outros jovens que se aperceberam do que estava a ser feito e mostraram interesse em juntar-se. Desta forma, a associação passou de envolver cerca de 15 crianças e jovens para números que já rondam a meia centena. Todos jovens que querem desenvolver os seus talentos e ocupar os seus tempos livres com alguma atividade artística ou ligada às artes.

“Abrimos as portas a outros jovens e estamos a receber muita gente. Já não é fácil, para não dizer que é quase impossível, conseguir conciliar, numa mesma sala, e muitas vezes ao mesmo tempo, atividades como a música, a fotografia, o vídeo, as luzes, o som… Agora precisamos de, pelos menos, mais três salas de forma a dividir melhor as atividades, ter mais atividades, e, também, poder receber mais participantes”, conta a presidente da associação, Neuza Monteiro.

Aquela responsável explica que a associação já está em contacto com alguns proprietários para tentar resolver a situação: “Procurámos alguns edifícios da cidade que não estão a ser utilizados e, neste momento, aguardamos a resposta dos proprietários. Por exemplo, uma associação do Porto, que gostou muito deste projeto, já nos prometeu ajuda para adquirir mais equipamento. Mas, mesmo que tivéssemos esse material agora, não haveria espaço físico para o colocar”.

Atualmente, a Free Project funciona numa sala de um edifício pertencente à câmara municipal, localizado junto à biblioteca municipal, que é gerido pelo ATL Idade de Ouro. Aliás, estas duas entidades são dois dos parceiros da Free Project, que tem ainda parcerias com as associações Reefood, Limite Fugaz e Backup.

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A nível internacional, a associação já tem parcerias, por exemplo, com os holandeses da Dinamo, uma associação da cidade de Eindhoven que pretende fazer um intercâmbio de arte urbana, com os suecos da More Mosaic, uma parceria a nível musical, e com os espanhóis da Tahur Eventos, que organizam eventos com crianças de bairros sociais. O objetivo destas relações consiste na troca de experiências e nos intercâmbios ao nível de visitas aos locais onde cada uma delas desenvolve a sua atividade.

“Outra das nossas frentes da batalha é encontrar donativos e outros apoios. Estamos a procurar no mundo privado e estamos a conseguir. Há algumas promessas que ainda não se materializaram, mas estamos em vias de garantir mais alguns apoios. Neste momento, todo o material que os jovens usam aqui é meu e da Neuza Monteiro, mas penso que no final deste verão já teremos mais equipamentos e outras possibilidades de funcionar ainda melhor”, refere Pedro Reis.

Autonomia e delegação de responsabilidades

Mas as atividades já não se resumem apenas às artes e os jovens que se vão juntando à associação começam também a ter, aos poucos, responsabilidades na gestão e na organização de todo o projeto. Alguns já fazem parte da direção, outros coordenam os mais novos.

Por exemplo, Miriam Brito é vice-presidente e coordena as aulas de canto dos jovens do centro de acolhimento. Bia Romão, outras das jovens que se juntou à associação, já ocupa o cargo de tesoureira e vai ser a mediadora de um projeto que visa levar a literatura aos bairros sociais. A estes juntam-se mais dois jovens, Cláudia Moreira e Jorge Guedes, que também coordenam atividades.

“Não somos uma associação que vive à volta da direção. Todos contribuem para fazer isto andar. Muitos dos jovens que vão entrando, passado algum tempo, vão assumindo responsabilidades dentro da associação. Estamos constantemente a delegar responsabilidades. Além das artes, também trabalhamos a sua autonomia. Eles também aprendem a assumir responsabilidades de coordenação e vão transmitindo aos mais novos o que vão aprendendo. E está a correr muito bem”, garante Pedro Reis.

A Free Project espera agora encontrar rapidamente novas instalações. Os responsáveis explicam que há muito jovens que gostam de conviver na associação, mesmo quando não estão a cantar, a dançar ou a tocar um instrumento. “Precisamos de lhe proporcionar esse espaço de convívio, porque isso também é inclusão”, recordam.

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