O “Politicamente Correto” a ir longe demais? – da igualdade de oportunidades à igualdade de resultados

A meu ver, sim. O “politicamente correto” é uma boa ideia que foi longe demais. De tal forma foi longe demais que explica, em boa parte, fenómenos como o Trump nos Estados Unidos e o Bolsonaro no Brasil.

As palavras “politicamente correto” são usadas, umas vezes bem e outras mal, para descrever o não-uso de linguagem e ações que, nomeadamente, são discriminatórias ou marginalizem pessoas ou grupos. Visto assim, é mais ou menos, como dizermos que queremos uma sociedade mais justa. Imagino que a grande maioria dos leitores queira uma sociedade mais justa e não discriminatória.

Porém, quando se levam as coisas longe demais em nome de grande ideais como a justiça e a não-discriminação arriscam-se a cometer muitas injustiças. Infelizmente, o “politicamente correto” não é exceção. Existem muitas formas de aplicar uma determinada ideia e algumas criam mais problemas e injustiças do que as que do que os que resolvem.

É o caso do “politicamente correto” quando passou da igualdade de oportunidades para a igualdade de resultados. Como diz o povo, “o inferno está cheio de boas intenções”.

Penso que a grande maioria dos leitores concorda com a igualdade de oportunidades mesmo que seja bastante egoísta. A razão principal é que existe talento em todos grupos que sejam brancos, negros, homens, mulheres, heterossexuais e/ou homossexuais, etc. Nós, em geral, queremos ser servidos pelos melhores engenheiros, médicos, políticos e gestores, entre muitas outras possibilidades. Pessoalmente, se um cão fosse o melhor médico do mundo quereria ser atendido por ele.

A igualdade de oportunidades passa, fundamentalmente, por duas coisas. Por um lado, por eliminar os que descriminam numa determinada característica do candidato que não tem a ver com a função. O mesmo por exemplo ao nível da justiça. Por exemplo, deve existir um esforço para que evitar que pessoas de diferentes grupos tenham penas diferenciadas em crimes semelhantes por ser brancos, negros ou lá o que seja.

Por outro lado, tomar medidas para que pessoas de grupos desfavorecidos possam atingir os padrões exigidos como é o caso da entrada nas universidades públicas. Por exemplo, criar programas nas férias para que estudantes de meios pobres se preparem melhor para exames de entrada nas universidades.

Outra coisa muito diferente é igualdade de resultados. Ou seja, lá por haver X por cento de homens, mulheres ou negros (entre muitas outras possibilidades) tem que haver uma determinada percentagem para esses grupos na entrada na universidade ou na política (por exemplo, é o caso da chamada “igualdade de género” na comissão europeia”.

Existem pelo menos três razões porque a igualdade de resultados tende a criar mais problemas do que os resolve. Uma das razões é nós sermos indivíduos. Não é por sermos homens, mulheres, brancos ou negros (entre muitas outras possibilidades) que somos favorecidos ou desfavorecidos à partida. Por exemplo, alguém dúvida que um negro de classe média alta tem mais oportunidades, à partida, do que um branco, negro, homem ou mulher (etc) que faz parte dos dois milhões de pobres que existem em Portugal. Se eu digo que existe uma determinada percentagem para negros na entrada na universidade, provavelmente, estou a dar um tratamento preferencial a quem já tem muitas oportunidades, à partida, e a baixar os padrões de acesso à universidade. Tarde ou cedo, isso reflete-se na baixa de qualidade dos profissionais que saem das universidades.

Outro problema da igualdade de resultados é conduzir a uma redução da qualidade da atividades que estivermos a falar – pode ser gestores, políticos ou outras atividade qualquer. Para entrar um candidato de pior qualidade por causa de um sistema de quotas tem que ficar um de melhor qualidade de fora.

Isso conduz-nos ao terceiro problema. Igualdade de resultados conduz a uma discriminação, muitas vezes, invisível e nem por isso menos injusta. Indivíduos mais competentes são excluídos de lugares (por exemplo, gestores e deputados) simplesmente porque fazem parte de um grupo “favorecido.

Ivo Dias de Sousa

professor da Universidade Aberta – ivo.sous@uab.pt

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