O PS não só deixou cair a máscara como se passou para o outro lado

Não há bicho careta que não entenda mandar uns palpites relativamente à pretensa nova lei de saúde. Cada um tem a sua interpretação do que entende ser “uma lei de saúde e respetiva abrangência, dos montantes gastos nos diversos hospitais, etc, etc.“ …naturalmente de molde a justificarem a sua já posição e orientação política e ideológica e não só.

Ora, houve, felizmente, quem vivesse e acompanhasse dia a dia as vicissitudes da degradação durante muitos anos do SNS e mais quem queimasse as pestanas a refletir e estudar em profundidade toda esta problemática. Tal como em tantas outras circunstâncias seria bom que o cidadão percebesse e tivesse cada vez mais em conta esta necessidade de informação séria e não parida por pseudo-jornalistas ou ditos de opinon-makers que papagueiam com toda a naturalidade o que julgam ser mais conveniente para agradar aos respetivos patrões.

Ora quanto à nova lei do SNS deviam ter percebido que, pelo menos, dois itens eram fundamentais e que estavam na base da imperiosidade de alterar a lei vigente de Cavaco Silva cujo objetivo era sem qualquer dúvida acabar ou pelo menos diluir na medicina privada todo o projecto plasmado na lei de Arnaut o que foi entendido desde logo por muitos profissionais de saúde que vinham apostando e assumindo como seu o SNS. Os anos subsequentes apenas serviram para confirmar e ampliar a justeza dessa evidência. A nova designação Sistema de Saúde tão do agrado dos “adventistas“ da medicina privada prova-o à saciedade. Por um lado a definição de um modelo devidamente fundamentado de um financiamento minimamente suficiente o que pressupõe o conhecimento de contas fidedignas (!!!) — v. estudos de Eugenio Rosa, p.ex.! – e não de números atirados de acordo com as conveniências. E por outro, não menos importante, da imprescindível separação do que deve ser público do que pode e deve ser privado em que circunstâncias quando e como. Estes pressupostos que continuamos a julgar fundamentais para qualquer nova lei de saúde foram, recordemos, aceites pacificamente pelos partidos de esquerda e levou, inclusivamente, a que o PS tenha preterido, a seu tempo, o projecto Maria de Belém. Algo se passou posteriormente sobre o que não creio ser ainda oportuno especular mas a que estou em crer a posição de Marcelo Rebelo de Sousa totalmente ilegítima, diga-se, não terá sido alheia

Quem viveu a verdadeira revolução que foi o advento do SNS com todos os sucessos conseguidos em tempo record – realidade praticamente única a nível mundial – que apenas foi possível graças a uma conjuntura sócio política de todo particular – e posteriormente ao processo progressivo da sua destruição, não pode deixar de se sentir triste e mesmo revoltado mas também com a experiência necessária para uma análise clara de como foi possível passo a passo destruir a menina dos olhos do 25 de Abril. E , em muito pouco é coincidente com o que ouvimos hoje na dita de comunicação social que , infelizmente, como sempre, vai ao correr do imediato sem cuidar do historial e de quem sabe… mas esse é outro problema não menos importante.

À semelhança do que ensaiou há algum tempo atrás com a ameaça de demissão onde se crê que colheu dividendos à direita, Costa repete a tática agora à esquerda atacando frontalmente em pleno Parlamento o Bloco de Esquerda tentando responsabilizá-lo pela não aprovação da nova lei do SNS. Sabemos que todos os que acompanharam todo o processo das negociações à esquerda não se deixam enganar e muito menos entendem a viragem via PSD, mas Costa não falava para esses, falava apenas para os votos no sonho de uma maioria absoluta. Sem dúvida que o poder corrompe (sobe-lhes à cabeça!) e no caso Costa tem outra particularidade – saber jogar em vários tabuleiros ao mesmo tempo; o que só dá resultado com os mestres de xadrez… e creio não ser o caso, felizmente.

Creio e espero que os partidos de esquerda saberão compreender estes dois… ou mais… PS’s e tenham presentes pelo menos o dito popular:

Na primeira quem quer cai… Na segunda cai quem quer!
Convenhamos que toda a estrutura sócio – política nacional desde Cavaco ou até antes está organizada no sentido do chamado bloco central com os seus “patrocinadores” económicos e apoios judiciais inclusive grandes escritórios de advocacia e controlo da comunicação social.

Compreendemos e apoiamos… e continuaríamos a apoiar se outra (?) fora a maioria do PS… esta solução de governo e creio que outra luz poderia brilhar neste país com todos os seus problemas e vicissitudes .
Porém, esta cambalhota inqualificável em relação ao SNS vai para além do imaginável.
Amigos do PS por favor reflitam e informem-se. É a maior conquista do 25 de Abril. Não se esqueçam de Arnaut, p.f.

25/06/2019

E o PS continua a brincar com a saúde

Mais um folhetim parece ter terminado tal como começou. Um fogacho… e o PS já não se entende com o PSD para a “tal” lei de saúde que inclusive levou o PSD a acreditar mais uma vez ingenuamente que o interesse era verdadeiro.

O problema é que o PS também por falta de esclarecimento, mas não só nem principalmente, não sabe o que quer. Ou melhor, há um PS que sabe e bem o que é necessário na linha de Arnaut e outro mais permeável aos grandes interesses económicos sedento de uma maioria absoluta e, quiçá, de uma nova aliança central… que naturalmente graças a Deus conflituam. Creio que o segundo PS infelizmente vai fazer valer a sua posição, e, pior, vai continuar com este jogo infeliz e desmotivante do seu habitual nim tão do agrado dos seus votantes, deixando passar o tempo, dando azo a novas pseudo notícias tão do agrado da nossa dita de comunicação social, com mais uma tentativa de remendo aqui e outra ali… à espera da tal maioria absoluta ou “quase”…!!!!

O problema é que o ainda designado por SNS caminhará inexoravelmente para o esgotamento… Outros virão… e daqui há anos os de hoje continuarão a dormir calmamente convictos que não tiveram qualquer responsabilidade no processo.
Que Deus os absolva. Talvez Arnaut não seja tão complacente…

28/06/2019

Eurico Gomes

*Médico

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