A chegada do comandante

Fatima Murta intOpinião de Fátima Murta

Felizmente que anunciaram o final da crise. Pelo menos, foi isso que eu ouvi, que este Natal será o primeiro vivido em bonança desde a magana se declarara, lá para os finais de 2008.

Por agora, e como eu sou de fazer memória das coisas, lembro uma das famílias mais respeitadas da minha rua. De repente, a sua quinta começou a ruir e perante a surpresa de todos. Era muito estranho, estávamos habituados a vê-los vestidos do melhor e mais fino. Ostentavam carros de grande cilindrada, todos os dias eram ocasiões de grandes festanças. Quando iam à peixaria, não admitiam cheiro de peixe miúdo. No talho, exigiam do lombo para cima.

O seu único patamar era uma vida ao nível dos melhores restaurantes do mundo. As famílias ricas são assim, muito solidárias umas para com as outras. Os filhos daquela família da minha rua frequentavam os melhores colégios com a acumulação de programas extracurriculares dignos de futuros grandes gestores e investidores. Davam-se ao luxo de oferecer cabazes a quem, no estrangeiro, lhes estendia as mãos.

Até que, um dia, resolveram ser solidários para com os “Espartacus”, e tudo em nome de uma qualquer dívida cultural. Depois, pensaram fazer o mesmo com os “Airichios”, uns sujeitos meio esquisitos que vivem numa ilha fria e teimam em fazer valer que são descendentes dos celtas, como se isso importasse!

Os da minha rua, os “Cabo da Roca” lembraram-se da Deuladeu Martins, isso é que foi, para atirarem assim tantos pãezinhos pelo cais afora!…

De repente ficámos de boca aberta, os “Cabo da Roca” estavam mesmo à rasca, completamente falidos. Pior, toda a família “Cabo da Roca” parecia atacada pela doença da miopia intracerebral. Doença muito estranha, os olhos vêem muito nítidas todas as coisas, mas nos neurónios que se lhes associam dá-se uma erupção de cataratas paralisadoras. Quanto aos sintomas, passo a enumerar:

Primeiro, puseram à venda barras de ouro a que chamaram caramelos com pinhão nacional. Depois, venderam os palácios que eram dos tetravós, ainda que os anúncios nos jornais referissem casas degradadas que nem constavam no mapa do “Portugal dos Falidos da Silva”. Por fim, entenderam colocar os mais pobres da rua em fila à porta do quintal. E, para quê? Para lhes exigir a entrega do dízimo, meio quilo de batatas e duas alfaces a que passaram a chamar “Ivita Chorona”.

Era um espectáculo! Saiam de dentro da casa na minha rua, grupos de doutores meneando a cabeça. Faziam relatórios e passavam o tempo a falar aos jornalistas, afirmando que era “muito preocupante, aquela pandemia ancestral!”. Mas, logo que os jornalistas desapareciam, gritavam para a população:

– Não é nada! Querem fazer clínicas nas nossas propriedades, os médicos são uns mentirosos!

Exibiam cestas carregadas de batatas. E acenavam para quem só tinha uma cenoura para entregar, ou uma rama de nabiça, ou um raminho de salsa já murcha. Tudo trazido de hortinhas improvisadas nas faixas de rodagem dos bairros agora despovoados pela emigração à força.

Um dia, corremos os médicos à pedrada. Se vinham fazer uma trafulhice à família dos “Cabo da Roca”! Até porque o tráfego era muito, e as carroças cheias de hortaliça não deixavam espaço à criançada ocupada em brincar com os skates.

Só muito tempo depois, é que percebemos que afinal “nem tudo era só fumaça”. Não foi fácil porque apareceram muitos socorristas a querer resolver o problema. Até que, por fim, lá decidiram chamar o Comandante Francelino Mergulhão Invasor. Diziam que era perito no diagnóstico a doenças que radiquem na IDIVA (imunodeficiência de imprevidência vital adquirida).

Passámos a andar a tremer pelas ruas. Andava tudo com umas olheiras do tamanho de repolhos. Assustavam-nos com a ameaça de que o Comandante ia pôr na linha todos os daquela casa, e os da minha rua e os de todas as outras ruas!

Também disseram que era a última tentativa que ele fazia para salvar os portugueses.

Um dia, ele foi-se embora, e os “Cabo da Roca” resolveram ir encomendar os últimos modelos de automóveis topo de cama. Ainda não os vi, devem estar quase a chegar.

Ainda bem que este Natal vai ser diferente.

Fátima Murta

 

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