REPORTAGEM

“Putos” de Marrocos estiveram quatro dias no mar a comer amêijoa crua e fruta

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Cinco quilos de amêijoas cruas. Dez quilos de fruta, muita maçã. Dez litros de água. Vários jerricans de gasóleo. Nenhuma manta ou cobertor, só a roupa do corpo. Era este o panorama da embarcação que domingo, dia 8, zarpou da cidade de El Jadida rumo ao sul da Península Ibérica. Chegou quatro dias depois. O JORNAL do ALGARVE falou com os tripulantes – oito miúdos com idades entre 16 e 21 anos – e fotografou-os. Em Exclusivo

Os oito jovens marroquinos que na manhã de quarta-feira da passada semana acostaram em Monte Gordo, no velho bote de sete metros de comprido, sobreviveram de bivalves crus e fruta durante os quatro dias da travessia entre El Jadida e a povoação do sotavento algarvio.

Expressando-se unicamente em árabe não dizem uma palavra em qualquer outra língua, nem sequer o francês, relativamente corrente em Marrocos os jovens recorreram à aplicação Google Translator para falar à reportagem do JORNAL DO ALGARVE, único órgão de comunicação social português com que contataram durante as 30 horas que permaneceram no Algarve.

Na entrevista, feita em condições de comunicação muito difíceis, os rapazes confessaram que tinham muita fome e frio quando chegaram à zona de rebentação da praia dos Pescadores de Monte Gordo. Para ser sincero, vimos a morte de frente, porque temos cinco dias , 55 horas de travessia, disse ao JA um deles, Amin Sehaba, 21 anos, que fez o papel de porta-voz do grupo.

Os rapazes gozavam uma folga no intenso interrogatório a que foram submetidos pelo SEF desde que chegaram, quarta-feira de manhã, quando falaram à reportagem do JA, no dia seguinte à hora de almoço, na Residencial Coração da Cidade, onde as autoridades os instalaram durante a sua permanência algarvia. Acabariam para sair, rumo a Lisboa, às 17:00 desse mesmo dia, pouco mais de quatro horas depois de o JA os ter encontrado.

Frango assado e arroz para matar a fome

Como razões para a saída de Marrocos, os jovens invocaram o mau nível de vida do país de origem: Para ser honesto, Marrocos não é bonito, não há trabalho, não há estudo, educação, nem direitos humanos, nem direitos da criança. O pior é que não há trabalho, explicou Amin Sehaba, que quantificou em 200 euros o salário mínimo no seu país. Residentes em aldeias vizinhas próximo da cidade de El Jadida, a sul de Casablanca, os jovens conheceram-se na escola e planearam a fuga, disse o porta-voz do grupo, que desmentiu a existência de qualquer embarcação maior que os tenha largado ao largo da costa portuguesa. Os jovens que pernoitaram uma noite na pensão de Vila Real de Santo António e, depois de serem ouvidos no SEF, almoçaram frango assado com arroz, tomaram banho e foram levados para o Centro de Acolhimento para Refugiados, em Lisboa, a cargo do Conselho Português para os Refugiados.

Entretanto, o SEF entidade a que a Capitania de Vila Real de Santo António passou a pasta dos rapazes no dia em que eles foram detetados por um popular nas dunas da Praia dos Pescadores mudava a linguagem e atenuava as expressões à medida que as horas passavam. Ainda na quarta-feira, à Lusa, fonte da polícia de estrangeiros considerava os jovens detidos e avançava com suspeitas de imigração ilegal, depois de terem sido intercetados na praia de Monte Gordo, escondidos nas dunas” daquela praia.

Portugal abandona atitude musculada

Numa súbita mudança de linguagem e postura, na manhã do dia seguinte, quinta-feira, o SEF invoca o quadro de proteção internacional aplicado noutros casos de estrangeiros resgatados no Mediterrâneo para revelar que Portugal vai acolher os oito jovens, depois de estes terem requerido, na madrugada desse dia, esse estatuto de proteção. O SEF indicava ainda que, à semelhança de outros migrantes que chegaram a Portugal, será assegurado e registado o seu pedido , e ser-lhes-á providenciada documentação que comprova o período de análise, para que, durante esse tempo, lhes possa ser garantida assistência médica, educação, alojamento e meios de subsistência. Um período de apreciação que pode estender-se a três meses. A atitude contemporizadora do SEF foi acompanhada pelo Ministério Público, que entendeu não haver motivo para seguir na via judicial e descartou a hipótese de os jovens terem sido alvos de qualquer rede de imigração ilegal.

A atitude das autoridades portuguesas contrasta ainda mais com a atitude musculada do governo José Sócrates, quando, no início de 2008, decidiu expulsar 23 marroquinos que desembarcaram na ilha da Culatra, concelho de Faro. O então ministro da Administração Interna, Rui Pereira, garantiu que o futuro dos 23 imigrantes marroquinos passava pela expulsão”, sublinhando que Portugal tem “uma política global de imigração” que aceita a imigração legal, considerando-a “como uma janela de oportunidades para o desenvolvimento dos países de origem e de destino”, mas que combate a imigração ilegal, que “está associada a fenómenos humanitários gravíssimos”. Os 23 cidadãos de origem africana que foram detectados em meados de dezembro de 2007 junto à Ilha da Culatra, partiram de Kenetra, a 40 quilómetros de Rabat, Marrocos, e terão viajado durante cerca de quatro dias até alcançar o Algarve numa pequena embarcação a motor.

No barco, durante a travessia

Vídeo com a euforia da chegada a Monte Gordo

Também os rapazes que rumaram ao sul europeu no passado dia 8 de dezembro parecem porvir de um grupo maior, a julgar por alguns dos vídeos que entretanto fizeram chegar ao JORNAL do ALGARVE. Num deles, é possível a perceção de que o conjunto inicial de jovens que se propunham sair da cidade costeira de El Jadida era sensivelmente o dobro dos que acabaram por zarpar para Portugal. No vídeo, disponibilizado sexta-feira via Facebook, vê-se um grupo de, pelo menos, 14 adolescentes a alta velocidade numa embarcação, incluindo os que acabaram por fugir do país norte-africano.

No escasso diálogo mantido na rede social (sempre com recurso à aplicação informática de tradução), um dos jovens limita-se a dizer que se trata do grupo inicial de candidatos à migração, sem precisar se também abandonaram o seu país. No vídeo, com 54 segundos de duração, entre 14 e 16 jovens surgem sorridentes e acenando para a câmara de telemóvel na mesma embarcação em que oito deles acabariam por chegar a Portugal. Entretanto, o JA teve acesso a outros vídeos publicados pelos jovens, todos editados e com música em língua árabe. Num deles vê-se o ambiente eufórico a bordo quando os oito jovens chegam a Monte Gordo (vê-se o casario da povoação), navegando de Leste para Oeste.

O sonho de levar a mãe a Meca

Noutro vídeo, aparentemente anterior, disponibilizado ao JA no passado domingo, vê- se os oito jovens a uma velocidade razoável mas aparentemente compatível com os 15 cavalos que as autoridades dizem ter o motor da embarcação com enorme alegria a bordo e sem qualquer traço de terra à vista.

Os jovens alegam que demoraram 55 horas a chegar à costa portuguesa, mas sustentam que saíram de El Jadida no domingo e chegaram a meio da manhã de quarta-feira, o que perfaz muitas mais horas. Quatro dias são 96 horas. A explicação da diferença deve ter a ver com as paragens que o grupo foi fazendo pelo caminho: as 55 horas devem- -se referir ao tempo durante o qual o bote esteve em movimento, a que há que acrescentar as pernoitas. Uma interpretação que, apesar das tentativas feitas ao longo da conversa entre o JA e o porta-voz Amin Sehaba, o jovem não confirmou.

Sobre o que querem fazer em Portugal, os rapazes são perentórios: batem com a mão no peito, mímica de que querem trabalhar no duro. E por palavras a intenção é a mesma: Viemos honestamente a Portugal para trabalhar arduamente. Marrocos não tem emprego bom, com direitos, reforçou o migrante, reconhecendo que a intenção inicial era ir para o sul de Espanha, mas considerou Portugal um país bonito para viver. Como é próprio de rapazes naquela faixa etária, têm a cabeça cheia de sonhos. Numa mensagem a que o JA teve acesso, sempre em árabe, um dos adolescentes pede desculpa à família, sobretudo à mãe, e promete que, com o que ganhará na Europa, a levará à cidade de Meca, na Arábia Saudita.

Já há emprego à vista

Entretanto, segundo o JN, uma empresa do concelho de Baião, do ramo da construção e conservação de obras públicas, diz-se disponível para dar emprego aos oito rapazes marroquinos. Diz o JN que a disponibilidade foi oficializada, sexta-feira, junto do SEF por Paulo Portela, administrador da Vialsil. Temos falta de mão de obra e esses migrantes seriam bem-vindos. Da nossa parte, o único problema tem que ver com o facto de um deles só ter 16 anos e, nesse caso, face à legislação não podermos empregá-lo, explicou. O empresário, que atualmente conta com cerca de 70 trabalhadores entre os quais sete indianos e um vietnamita -, pretende avançar para a contratualização de mais mão de obra estrangeira. Não temos possibilidades de competir com os ordenados que os nossos concidadãos auferem no estrangeiro, admite, perante a impossibilidade de fazer regressar os emigrantes portugueses a trabalhar no estrangeiro.

João Prudêncio

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