REPORTAGEM

“Receio o dia em que escolheremos quem deve viver”

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Duas enfermeiras do SNS em contacto com doentes covid, uma de Faro e outra de Portimão, reconhecem que temem as consequências desta nova fase da epidemia. Mas falam mais da segurança dos outros do que da sua própria

Sem papas na língua nem falsas temeridades, a enfermeira Paula Faustino, 41 anos, confessa os medos que sente: “Tenho medo sobretudo pela minha família. Mas tenho outro medo: a nível profissional receio que não sejamos suficientes para o que aí vem e para o tempo que ainda nos falta disto. O que se espera e está previsto em termos de planeamento de catástrofe são muitas vagas na UCI de doentes covid. E o nosso staff de cuidados intensivos continua igual. Alargámos o nosso número de camas mas nós continuamos os mesmos. Temos enfermeiros para 16 camas, que era o que tínhamos antes da pandemia”.


Mas a enfermeira da Unidade de Cuidados Intensivos (UCI) do Hospital de Faro tem sido avassalada, ultimamente, por outro medo persistente, que amiúde lhe tira o sono: “Vir a ter que decidir qual o doente que iríamos ligar ao último ventilador ou última cama. Isso assusta-nos e tira-me o sono”. Não aconteceu ainda no Algarve, mas, se os números continuarem a crescer como até aqui, “provavelmente vai acontecer”, vaticina.


No Hospital de Faro há 20 anos, dos quais 12 na UCI, Paula põe o dedo na ferida do cansaço, reforçando a queixa da falta de profissionais: “Estamos cansados. Isto é desgastante, até porque todos nós temos outros papéis na vida, pais, filhos, vida extra. Estamos fartos, cansados. Quando se fala em mais camas de UCI ficamos assustados, porque não basta ventiladores, camas, estruturas físicas, precisamos sobretudo é de pessoal!”, enfatiza a enfermeira.


Perante a escassez de profissionais, Paula Faustina teme os efeitos do covid-19 nos serviços não covid. “Quando estamos ocupados com isto onde andam as outras coisas? A nossa UCI de doentes não covid costumava estar cheia e vai continuar. Continuamos a ter uma UCI não covid com muitos doentes e quanto mais as pessoas descuidarem a vigilância das doenças crónicas, adiamento de consultas, de cirurgias, pior. Com este adiamento de doentes não urgentes há muitos que ficam por diagnosticar e que nos vão chegar”.

Doente covid é mais instável


Sobre as diferenças entre esta fase alta da curva epidemiológica e a anterior fase, a enfermeira sustenta que ela não é grande: Não tem havido grande diferença em termos de volume de trabalho. Antes da pandemia eram 16 camas e agora há mais. Às vezes as pessoas esquecem que a UCI de doentes não covid continua a trabalhar. Eu mesma, como profissional, posso estar a trabalhar na UCI normal hoje e amanhã na de doentes covid”, sublinha, reforçando que é a assistência aos doentes não covid que sai a perder.


Sobre o acréscimo de trabalho e o ganho de experiência das equipas, Paula Faustino observa: “O doente crítico já por si é muito instável e exige uma atenção muito constante da nossa parte. Quanto ao doente covid, é um doente que não conhecíamos bem, temo-nos adaptado a cuidar destes doentes, a experiência e a evidência científica vai-nos dando algumas luzes, mas é um doente muito instável. Por isso é um doente crítico que exige uma atuação muito rápida”.

O equipamentos de proteção individual são “uma pequena sauna”, queixam-se alguns enfermeiros


Um aumento da carga laboral que se traduz também na extensão dos turnos: “Os turnos eram de 12 horas na primeira fase da pandemia, depois baixaram para oito horas agora são de novo 12 de há uma semana para cá. Chegámos a fazer turnos em que passávamos lá dentro oito ou 10 horas. Agora estamos a conseguir, ao fim de quatro a seis horas, revezarmo-nos entre colegas”, explicita. Nas horas que passa fora da unidade dá apoio ao colega que está lá dentro: “Atualizamos o plano, logística, arrumamos o material. E temos que estar sempre preparados para reentrar na unidade em caso de emergência”.


Observa que a unidade covid está isolada do resto do serviço e trabalhar ali significa alguma penosidade acrescida, embora destaque que, por natureza, os enfermeiros são resilientes face às dificuldades da profissão. “Passamos a porta e a partir desse momento sabemos que temos que lá ficar 4 a 6 horas no mínimo, até poder sair. Temos que nos aguentar lá dentro o máximo de tempo, sair significa desperdiçar um equipamento. E eles são a nossa proteção e não queremos que eles acabem. No serviço eles são usados de forma criteriosa”.

Equipamentos de proteção são autêntica sauna


“Aguentar” significa suportar temperaturas altíssimas e níveis de transpiração elevados dentro dos Equipamentos de Proteção Individuais, os “fatos” que as equipas médicas são obrigadas a envergar: “Não há abordagem sem EPI. O que torna diferente este trabalho com covid é o tipo de procedimento a fazer. Este doente exige um isolamento respiratório e, por isso, um fato mais completo, com cógulas, perneiras. É um fato extremamente quente. É uma pequena sauna”.


Uma “sauna” obrigatória porque a maioria dos doentes não está ventilado e isso aumenta o risco de infeção para o profissional de saúde:“Quando o doente codiv está ventilado, a manipulação da via aérea do doente é menos problemática, porque ele está fechado. Podemos manipular o doente sem respirar secreções, sem aerossóis ou partículas que nos possam contaminar. No caso dos entubados, e a maioria está entubada, há uma produção maior de partículas através da respiração, da fala e da tosse. E o ambiente fica de risco”.

Carolina Macedo, enfermeira no Hospital de Portimão


Enfermeira na ala covid-19 do Hospital de Portimão, Carolina Macedo, 27 anos, concorda com a colega de Faro quanto à dificuldade de suportar os EPI: “Se estivermos meia hora num sítio com os EPI e completos, saímos de lá parecemos uns pintainhos, todos transpirados”. Mas releva o peso da responsabilidade, de pôr e tirar os EPI, desinfetar, sem deixar que a rotina do gesto possa pôr em causa a saúde do profissional: “Só nos equipamos com os EPI completos quando vamos à enfermaria.

Levamos 3 a 4 minutos, e há sempre alguém na retaguarda a ver se está tudo bem, se nos estamos a equipar corretamente”.
Enfatizando que o Hospital de Portimão “está muito bem preparado” para esta nova fase do vírus, Carolina analisa que os profissionais de saúde parecem agora um pouco mais acostumados. “Com isto não estou a dizer que a gente não tem medo, que vamos para lá e é um risco, mas já estamos mais conscientes, temos a mente mais aberta, não é aquele choque como foi o inicial”.

O receio de que a profissão volte a cair no esquecimento


Sobre as diferenças entre Março/Abril e a atual fase, nota que já há mais doentes do que na primeira fase, mas agora “de uma faixa etária que já não é tão velha. São positivos, a gente presta os cuidados e muitos deles voltam para casa, depois de tomarem a terapêutica prescrita. Noto que havia mais idosos na primeira fase do que agora. Há muitos com 40 a 60 anos, agora”.


“Mas isto ainda está muito no início. O número de doentes continua a crescer. Claro que o Hospital está a pensar em planos B e C caso o hospital fique cheio, mas ainda não foi preciso nenhum. Tem estado tudo controlado. A equipa médica e de enfermagem está a fazer um trabalho muito bom, a conseguir controlar. Por exemplo, naqueles casos em que é mesmo preciso internamento, outros em que não é preciso”.


Carolina corrobora com a sua colega Paula quanto à necessidade de haver mais profissionais de saúde nos serviços e de que a profissão fosse mais valorizada.


“Porque agora somos os heróis, mas quando isto acalmar já não nos ligam outra vez, isso é o mais certo. Nós nem temos um subsídio de risco”, conclui a enfermeira, há quatro anos na profissão.

João Prudêncio

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