OPINIÃO

Remate certeiro: As vacinas contra a gripe que nunca mais chegam

OPINIÃO | NETO GOMES
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As vacinas contra a gripe que nunca mais chegam e as histórias deliciosas do Vadinho, estimado por todos em Portimão

Naquele tempo,
no cais da lota de Portimão, onde encontrámos tantas vezes o Vadinho, havia sardinha para dar e vender

Tem momentos em que isto é mesmo uma risada, apesar das coisas que se passam à nossa volta, devido a esta pandemia avassaladora, onde muitas vezes nos TRATAM COMO INGNORANTES, e quase que nos apetecia repassar por aqui, à história da chegada da Vacina contra a gripe, cujo transporte deve ter gripado e agora vem à boleia. E quem é que dá boleias, nesse traumatizante período de confinamento e afastamento social a uma vacina?


Aliás, sobre a vacina da gripe, e antes de entrarmos propriamente, num REMATE CERTEIRO menos doloroso, porque também temos o direito de ser felizes, no qual perpetuamos amigos fazendo rodar a vida evocando histórias que nos entristecem, mas também nos fazem sorrir, permitam-nos que citemos Clara Ferreira Alves, num texto brilhante publicado na E Revista do Expresso, [Vacinas para pessoas importantes], p.3.


“No dia 28 de setembro, o XXII Governo, anunciava no site da República Portuguesa o início da campanha de vacinação contra a gripe, intitulada «Vacine-se por si, vacine-se por todos», e ao mesmo tempo a ministra da Saúde, Marta Temido, visitava a Estrutura Residencial para idosos (ERI) da Casa do Artista, em Lisboa, onde estavam a ser ministradas vacinas a 69 residentes e 42 profissionais. Em declarações à comunicação social, única razão pela qual a ministra se interessou subitamente pelos idosos da Casa do Artista, Marta Temido afirmou que «este é um momento muito especial, porque estamos num ano absolutamente extraordinário e que tem exigido o melhor de todos nós». Justificou a escolha da Casa do Artista para a sua propaganda e para esta indigência (que os cidadãos ouvem até à náusea) porque a Casa do Artista não tinha tido até aí casos de covid entre utentes e profissionais, um «resultado que nos encoraja a todos». Destacou ainda o «envelhecimento ativo» que se prática nesta instituição, onde habitam «várias pessoas que já ultrapassaram os 100 anos e que, até este momento tinham vidas bastante ativas artística e socialmente».


Logo, o problema do lar de Reguengos de Monsaraz, e o de todos os outros, os dos velhos empilhados, é não ter «envelhecimento activo». E não serem «artistas», uma espécie ameaçada em tudo menos na idade, caso cheguem aos 90 ou aos 100 anos. […]”


Clara Ferreira Alves finaliza a sua brilhante crónica, a respeito da longa caminhada da vacina da gripe até chegar a todos nós, rematando: “Estamos em Portugal. Em paralelo, há um mercado negro nas vacinas. Não tanto movido a dinheiro, movido a influência. O dinheiro ajuda. Quem conhece uma pessoa que conhece uma pessoa, que conhece um político importante, tipo ministro ou família ou amigo, ou um médico importante, ou mesmo um ‘perito’, arranja a vacina. Ainda bem que o Presidente Marcelo consegui tomar a dele a tempo e horas.


Imagine-se tal incompetência e tráfico de influência aplicados à vacina covid.”


Mas chega de lacrimejarmos a alma, chorando para dentro de nós, neste terrível pregar aos peixes, para já por uma vacina contra a gripe, e entremos pelo verdadeiro REMATE CERTEIRO, que hoje vai homenagear com todos os erros de memória e omissões da mesma, o meu saudoso amigo Vadinho, isto é, o Francisco Isidro.


Isto aconteceu há muitos anos, em Portimão, e até parece que foi agora, quando na altura rodava pelo eixo do tempo o começo dos anos setenta.


O meu amigo Vadinho, explicarei mais adiante, que era o meu amigo Vadinho, estimado por toda a gente e ambos tínhamos muitos comuns, e muitos deles já são saudade: Afonso, Pacheco, Arquimínio, Rebelo, Alexandrino, José António, Semedo (ainda residi com ele, na casa do seu sogro), Ramos, Sota (Luz), Celestino, Mateus, que foi meu instruendo em Tavira, no CISMI, Lecas, que nasceu na minha terra, em Vila Real de Santo António.


Todos esses amigos tinham representado o Portimonense, tal como o Zé Manuel, que todos conhecíamos, e ainda hoje conhecemos, como José Manuel Manita, que era um amigo muito especial do Chico Isidro.


O Vadinho, morava na rua D. Maria Luísa, e era estimado por todos, e até teve um casamento que durou menos tempo, que alguns governos do meu amigo Vasco Gonçalves, mas antes disso, namorou muito pouco tempo com uma pequena que conheceu num dos bailes da Casa dos Pescadores, ou noutros que se realizavam no verão, ali bem perto do Largo do Dique, que morava no sitio das Cardosas e era prima afastada, tão afastada com de Portimão a Viana do Castelo, do meu amigo Manuel Gonçalves, que foi meu colega nas finanças em Portimão, numa altura em que eu e o saudoso António Cavaco, que foi mais tarde gerente da Caixa Geral de Depósitos, em Faro, fizemos desaparecer por uns dias o selo branco.


Nesse tempo chefiava a repartição de finanças, o meu querido amigo Álvaro Augusto Mareco, pai do Mareco, que para mim foi sempre um homem excepcional. Havia quem se chocasse com a autoridade e profissionalismo de Álvaro Augusto Mareco, mas eu caí-lhe no goto e no gosto, e foi muito importante para mim.


Breve, ainda não sei quando, voltarei ao tema Portimão. Calma, não sei quando, para fazer desfilar por aqui gente que me foi generosa, amigos do peito, tais como o Bonança, marido da Rosa, o saudoso Manuel Caldeira, Rocha da Silveira, médico, Mira Pacheco e tantos outros.


Vadinho, de seu nome Francisco Isidro, era uma magrizela, assim a modos de Chico Fininho, mas um grande sportinguista, e até tinha a mania que sabia jogar à bola e em todos os momentos procurava imitar o verdadeiro Vadinho.

Mas quem era esse Vadinho, tão ligado à mente do amigo Chico Isidro?


Vadinho, de seu nome Osvaldo Chaves Cordeiro nasceu em Sete Lagoas, no Estado de Minas Gerais, no Brasil, no ano de 1933, sendo contratado pelo Sporting ao Vasco da Gama, do Rio de Janeiro em 1956 e no velho José Alvalade, ainda jogou com o nosso Manuel Caldeira, permaneceu até 1961.


Com o passar do tempo, o bom do Chico Isidro, entusiasmado com as exibições do Vadinho, apelidou-se, ele próprio, de Vadinho, e sempre que o tratavam assim, o seu sorriso crescia orgulhosamente de orelha a orelha. Aliás, em Portimão, já ninguém o conhecia pelo Chico Isidro, mas simplesmente pelo Vadinho.


Até nas jogatanas que se faziam no areal duro na Praia da Rocha, antes que a chegada dos veraneantes com o soprar dos primeiros calores, ocupassem maciçamente a praia, o bom do Chico, em todos os momentos do jogo, até na comemoração dos golos, fazia-o como o Vadinho.Passa Vadinho!

Chuta Vadinho!

Isto é penalti pá! Porra iam matando o Vadinho… aqui, nessa ocasião, fazia-se referência a um toque mais ríspido que o Vadinho tinha levado do saudoso Adolfo que morava na Rua do Norte.


Educado, sorriso abastado, o Vadinho, era feliz à sua maneira e não se conhecia alguém que se zangasse com o Vadinho, que trabalhava no que aparecia, mas era desembaraçado a mexer nas coisas da electricidade, tendo inclusive, trabalhado durante muito tempo na secção de manutenção de um hotel na Praia da Rocha.


Vadinho, folgazão e divertido, nunca negando nada, também participou nalgumas peças de teatro que se realizavam, e creio que ainda hoje se realizam cujo impedimento será a maldita pandemia, no Boa Esperança, onde subia ao paco para fazer a cena de um combate.


Num lado o Vadinho, bem magrinho, como sempre o conhecemos, no outro e como adversário, temível adversário, surgia o João Pedro, da sapataria, bem corpulento, a roçar o gordo.

A entrada dos dois em cena era delirante, cuja estilo do Vadinho quase que enlouquecia a plateia. Era um combate incrível, mas apesar das apostas darem sempre a vitória ao João Pedro, com um cabedal de arrepiar, era o Vadinho o grande vencedor e alguma vezes por ko, ko de gargalhadas.


No dia seguinte, todo vaidoso por ter ganho o combate, Vadinho, camisa de fora das calças, bem aprumado, rasgava a pé toda a rua do Comércio até à Casa Inglesa, com um espírito magico. Esses eram momentos, de igual modo cheios de magia, na vida de uma cidade incrível.

Um dia, ou para melhor uma noite, o Vadinho com outros companheiros de viagem, roubaram um barco com a intenção de cumprir um sonho. Fugir para Marrocos.


A viagem não foi longa, pois um pouco depois de Ferragudo, foram interceptados pela Guarda Fiscal, e com o seu sorriso de esperança, lá convenceu a guarda fiscal, dizem as mal línguas, que um dos guardas até era seu amigo, regressando depois a casa, com um ar bem abatido, parecendo pelo seu cansaço, que teria acabado de fazer a travessia do atlântico.


Em certa altura da sua vida, o bom do Vadinho apareceu na casa das bicicletas do Fernando de Deus, que se situava na rua Direita, apenas para dar de vaia, para dizer bom dia.


Fernando de Deus, viu o Vadinho tão estranho e amarelado, que lhe perguntou.

Vadinho! Que cara é essa?

Mó, senhor Fernando, não me diga nada! Esta noite nem consegui dormir…
A conversa ficou por aqui, mas dias depois o Vadinho sentindo-se mal, foi ao Hospital da Misericórdia, que era em frente ao antigo quartel dos bombeiros, onde se situa a Igreja do Colégio.


Muito abatido, foi encontrado à porta do Hospital pelo Dr. Menéres Pimentel, que ia a entrar de serviço.

Vadinho, O que se passa? Questionou-o o bom do Dr. Pimentel.

Sôr doutor, desde ontem, que não consigo urinar. Parece que tenho aqui, (e aponta para a dita) uns chumaços a prenderem a urina e tenho umas dores tão grandes, que até parecem pragas do Raúl de Alvor.


Cinco dias depois, a uma sexta-feira, totalmente recuperado dos chumaços, como ele chamava ao impedimento da urina, Vadinho estava junto ao quiosque do Portimonense para meter o totobola e deu de caras com o Fernando de Deus, que mal o viu, atirou:

Vadinho! É pá, hoje estás com um bom aspecto, o que é que te fizeram.

Olha, pela mão do Dr. Pimentel e com a ajuda da enfermeira Matilde, uma rapariga de Odiáxere, estenderam-me numa maca, tomei uns comprimidos, bebi muita água, meteram um tupo, falavam que era um «argália», e agora já mijo contra a parede…
Sei que o Vadinho já não está entre nós, mas às vezes, quando a noite acontecia, chegávamos com outros filhos da noite, a comer bacalhau assado na Galera.


Gostei de te conhecer Vadinho, também pelo ser humano que era, e se calhar muitos portimonenses, sobretudo os mais velhos, lendo estas pinceladas, também procurarão regressar ao palco da memória, para ver outra vez o Vadinho, a ser levado aos ombros no Boa Esperança, pela grande vitória conquistada sobre o João Pedro…

Neto Gomes

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