OPINIÃO

Remate certeiro: Morreu Carlos do Carmo, numa “Madrugada”

O homem e o fadista que também cantava a “A Tarde Mais Longa que me Acontecia …”

Quando tomámos conhecimento do falecimento de Carlos do Carmo, escrevemos: “O ano novo mesmo agora começou e já encalhou na alcatifa: MORREU CARLOS DO CARMO, UMA DAS NOSSAS VOZES MAIS NOTÁVEIS. POR MIM, A SUA VOZ, NUNCA SE CALARÁ. Que descanse em paz e obrigado pelo que representou para todos nós”.


Por isso, nada nos inibiu de escrevermos meia dúzia de linhas sobre Carlos do Carmo, não no desejo de protagonizarmos qualquer critica sobre a sua vida artística, mas perante o que sentimos e por aquilo que fomos ouvindo desde há longos anos, pela Rádio, pela TV e por alguns discos que fazem parte do nosso espólio, que curiosamente adquirimos antes do 25 de Abril de 1974, e que se constituem como memórias discográficas e alguns recortes documentais, jornais/livros, que não nos quebram o engenho de darmos a voz de Carlos do Carmo ao nosso Remate Certeiro.


A primeira vez que Carlos do Carmo chegou à nossa casa, em termos discográficos, foi quando em 1971, e editado pela Alvora (disco LPS), com o título: O Fado de Carlos do Carmo (Conjunto de Guitarras de Raul Nery, e que incluía os doze fados seguintes, alguns autênticos ex-libris do fado: O resto da minha esperança (Raul Pinto – Fernando Peres); O trem desmantelado (Fernando de Freitas – Carlos Conde); A rua do silêncio (Alfredo Duarte – A. De Sousa Freitas); Romance das horas paradas (João Maria dos Anjos – Fernando Peres); Sempre que lisboa canta (Carlos Rocha); Velha Lisboa (Fausto Caldeira); Estranha forma de vida (A. Duarte Marceneiro – V. Silva); Loucura (Júlio de Sousa); Lisboa Casta Princesa (Raul Ferrão);Viela (A. Duarte Marceneiro – G.P. da Rosa); Coimbra «Avril au Portugal» (Raul Ferrão); Uma casa portuguesa (Artur Fonseca).


Este disco foi decisivo para passarmos a ter em conta a qualidade e as humildes ambições que acabariam por caracterizar a fantástica e enriquecedora carreira de Carlos do Carmo.


E nesta rodinha, que ao sol ficava ondulada, que rodava sobre um gira-discos, era o desfilar de mil fados, que ainda hoje são cantados por várias gerações e que permitiram também fazer eco de brilhantes poetas, e entre eles, Vasco Graça Moura, Herberto Helder, José Saramago, Sophia de Mello Breyner, Hélia Correia, Júlio Pomar e Jorge Palma, que são alguns dos autores que se cruzam no novo disco, que a pandemia não permitiu que já tivesse sido editado.


Mas também, outros foram os poetas que deram voz a Carlos do Carmo, tais como António Gedeão, Zeca Afonso, Silva Tavares, Alfredo Marceneiro, Victorino D’Almeida, Mário Pacheco, Paulo de Carvalho, Frederico de Brito, Nuno Júdice, Maria do Rosário Pedreira, Júlio Pomar, Manuel Alegre, entre muitos outros.


Há muitos anos, muitas antes do 25 de Abril de 1974, desloquei-me a Lisboa, pela minha ligação do extinto Mundo Desportivo, e ainda marquei encontro com o meu amigo João Francisco Raimundo Moita, que nessa altura, creio eu, estaria ligado à empresa do Teatro Monumental, que até tinha um restaurante na Avenida Fontes Pereira de Melo, e aí a convite do Moita, fomos almoçar, e nessa altura, um pouco distante, num balcão corrido, sentou-se um jovem bem vestido, a que o Moita me deu conta tratar-se de um fadista com muito talento de seu nome Carlos do Carmo.


Portanto, na altura, Carlos do Carmo, já começava a ser uma voz conhecida, portadora de uma nova geração de fadistas, que tinham a responsabilidade de caminhar nas peugadas de Amália Rodrigues e abrir alas ao futuro e a notabilíssima responsabilidade de manter viva alma do fado, e que Carlos do Carmo, deu voz ainda muito novo na casa da Fado Faia, propriedade de seus pais.


Ainda guarda como memória documental muito mais momentos do canto e encanto da voz de Carlos do Carmo, e solto aqui, como quem atravessa a passadeira para o outro lado da vida, onde ele já se encontra, coisas maravilhosas, como Gaivota; Lisboa Menina e Moça; Partir é morre um pouco; Bairro Alto; Canoas do Tejo; Andorinhas; Vim para o fado; Não se morre de saudade; duas lágrimas de orvalho ou Por morrer uma andorinha.

Carlos do Carmo quando da sua passagem por Loulé foi homenageado por Francisco José que lhe ofereceu uma estatueta na presença de Vítor Aleixo, presidente da CM de Loulé


E agarro com toda o sentimento, e uma humildade revoltante, porque sendo verdade que «morrer é partir um pouco», cada um de nós, mesmo os decapitados de ódios mesquinhos, não podemos deixar que Carlos do Carmo morra.


Aliás, quando ele canta, sim canta, porque ele continuará entre nós «Por morrer uma andorinha» …não acaba a primavera, Carlos do Carmo continuará a ser sempre um dos soldados da primavera. Da Primavera de muitas madrugadas despertadoras.


Soldado de um tempo novo para Portugal, quando assumiu sem medo, as mudanças, cantando em 1976 todas as canções do festival da canção, quando lutou para fado património cultural, rasgando para sempre, a constante pressão, sem cor deliberadamente a preto e branco do Estado Novo, pela afirmação de que o Fado era uma coisa do regime.


E porque foi numa madrugada que Carlos do Carmo nos deixou, atravessando a passadeira para o outro lado da vida, lembramos um curto trecho deste seu fado:

Vestida de madrugada
Vaga ilusão desmaiada
Da tristeza do luar
É esta vida em desejo
Muitos beijos num só beijo
Que nunca cheguei a dar […]»

Mas logo a seguir, inevitavelmente, nasce em cada um de nós, uma profunda Saudade, que já nos começa a magoar:
Nasce o dia na cidade que me encanta
Na minha velha Lisboa de outra vida
E com um nó de saudade na garganta
Escuto um fado que se entoa
à despedida […]

“Um dos seus maiores contributos para a cultura portuguesa foi a forma como militantemente renovou o fado e o preparou para o futuro”, afirmou António Costa

Disco Carlos do Carmo, gravado no teatro Monumental, programa Curto Circuito, da RTP (arquivo Neto Gomes)


Também António Costa, primeiro-ministro evocou com imensa saudade Carlos do Carmo, recordando-o como “notável fadista” e “um grande amigo”.


“Fazendo eco das palavras que cantou no Fado da Saudade: ‘Mas com um nó de saudade, na garganta/ Escuto um fado que se entoa, à despedida’ de um grande amigo”, escreveu António Costa numa publicação na rede social Twitter.


O primeiro-ministro lembrou ainda que Carlos do Carmo “não era só um notável fadista, que o público, a crítica e um Grammy consagraram”. “Um dos seus maiores contributos para a cultura portuguesa foi a forma como militantemente renovou o fado e o preparou para o futuro”.

Recorda o jornalista Miguel Carvalho, como importantes salpicos de memória, na Revista Visão, no antetítulo: Também Silenciado

Com o título A última conversa com Carlos do Carmo (1939-2021), na Revista Visão, o jornalista Miguel Carvalho, recorda o fadista e a sua última conversa, começando por lembrar que “Fadista faleceu aos 81 anos, no primeiro dia de 2021, no hospital de Santa Maria, em Lisboa, depois de aí ter entrado com um aneurisma na aorta. Na morte do cantor a quem o fado deve parte do seu renascimento pós-25 de Abril, a memória de uma longa entrevista, em parte inédita, onde ele revisitou o seu percurso e fez as “pazes” com Amália.”


E desta conversa, tida a 3 de Março de 2019, e editada a 1 de Janeiro de 2021, na Revista Visão, recuperáramos como salpicos que vão enriquecer ainda mais a vida de Carlos do Carmo.


“[…] Antes do 25 de Abril cantava fado, mas não o choradinho, a lamechice, o estímulo da pobreza e da pequenez. Senti o peso do carimbo comunista depois, isso sim. Estive cinco anos sem cantar na RTP. Foi a altura em que comecei a cantar no estrangeiro. Se me perguntar se me lembro das pessoas que me fizeram isso, lembro-me. A algumas delas até lhes falo muito bem. Mas coitadas, fazem dó.


Foi o Daniel Proença de Carvalho que me resgatou para a RTP. Telefonou para minha casa e disse: “Ó Carlos, isto é uma vergonha, você não vem aqui cantar há não sei quantos anos”. Convidou-me, pôs-me a falar com a Maria Elisa e fizemos um programa.


Álvaro Cunhal I
Tenho os desenhos da prisão do Álvaro Cunhal dedicados por ele aos meus quatro netos. Quando assinou o primeiro, para o Sebastião, disse: “Você está a arranjar-me aqui um petisco… É que depois vêm os outros netos e eu não posso deixá-los para trás”. Então eu ia à sede do PCP perguntava se ele estava, se me podia receber, levava o desenho, e ele assinava.


Álvaro Cunhal II
Já não lhe sei dizer quantas vezes estive doente. E numa das vezes estive no Hospital Santa Maria, muito mal. O Álvaro Cunhal ligava todos os dias para a minha mulher, Judite. E uma das vezes disse: “Não é preciso dizer nada porque tenho lá gente amiga e sei como é que ele está”. […]”
Caiu o pano, apagaram-se as luzes, agora só se escuta o silêncio dos aplausos que ecoaram nas centenas de concertos que deu nos palcos de todo o mundo, dando voz aos portugueses e a Portugal, mas a sua voz, a voz de Carlos do Carmo, nunca se calará.

Neto Gomes

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