SMS:A hora absurda

Não escrevo de ânimo leve o título deste apontamento. Hora Absurda é o título de um célebre poema de Fernando Pessoa, escrito em 1913, publicado em 1916, e costuma ser encarado como um poema do poeta quando ainda simbolista, poema carregado de imagens fortes e pensamentos de languidez em torno de sensações íntimas, particulares. Nada dele parece ser social ou político, a hora absurda de Pessoa é uma hora interior. E no entanto, como as palavras são limitadas, e as combinações também, não posso deixar de usar a expressão, neste Outono de 2021, numa hora do jogo político que me parece absurda. Falo, naturalmente, da discussão do Orçamento de Estado que à hora a que escrevo estas linhas ainda não foi chumbado, mas já estará no momento em que este jornal sair para a rua.

Sim, esta é uma hora absurda. A manobra que conduziu ao chumbo do Orçamento de Estado para 2022, depois de uma pandemia de quase dois anos que obrigou o país a um esforço sem precedentes como não acontecia há muitas décadas, depois de uma interrupção da recuperação económica levada a cabo como nunca se imaginaria, entre 2016 e 2019, interrompida por este brutal descalabro que atingiu todos os países do mundo, sem exceção, os dois partidos que deveriam ser os aliados do partido que atualmente lidera o governo, colocam a exigência, neste preciso momento, de que se proceda a uma revolução orçamental, defendendo que o país terá de fazer uma alteração profunda no campo social, laboral, político, cultural, de que necessita, mas agora, apenas pela manobra milagrosa das contas pós-pandémicas de 2022. Estranho que assim seja.

Claro que a Democracia encontrará uma saída. Claro que as eleições permitirão dizer se irá haver, a partir de janeiro, uma continuidade ou uma alternância, e a alternância faz parte da democracia, claro que não nos iremos deitar ao mar. Mas iremos empobrecer ainda mais, iremos ficar trancados, adiados, e iremos abrir as portas aos extremistas que esperavam um momento difícil para transformaram a dificuldade em catástrofe, na mira de denegrir o regime e o tomar de assalto. E iremos proporcionar a que na extrema esquerda e na extrema direita se ouça o que não julgávamos possível ouvir e já se está a ouvir – Trabalhadores do SNS! Reformados! Operários! Meu povo! – Meu povo! Triste que se ouça isto. Tão triste quanto outro líder dizer – “O povo tem de escolher o seu homem!”. Julgava eu que nunca iria ouvir frases destas na minha vida, mas elas agora correm – “Meu povo!”, “O seu homem!” – Não são as eleições que virão que preocupam, mas o caldo azarado em que ocorrem. E isto é que é a hora absurda, coletiva, que vamos viver a partir de agora.

Flagrante pobreza: A verdadeira pobreza começa onde e quando os líderes locais são pobres de espírito.

Carlos Albino

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