SMS: Há mistério na greve dos enfermeiros

Carlos Albino

Às vezes deveríamos perguntar aos mortos o que pensam das acções dos vivos. Não creio que São Bento, o dito santo italiano que criou as regras monásticas que incluíam a prescrição de que os monges deveriam prestar assistência a todo o enfermo que se abeirasse do convento, estivesse de acordo com o que se está a passar em Portugal, uma greve de enfermeiros que vem do mês de novembro e ameaça prolongar-se pela primavera fora, Verão adentro.

Claro que não é politicamente correcto ser-se contra grevistas em Portugal, em primeiro lugar porque existe a memória do tempo noturno de Salazar quando não havia direito à greve. Em segundo lugar porque, com um nível de vida tão baixo quanto têm os portugueses, qualquer greve se justifica. Em terceiro lugar, porque a má gestão dos dinheiros públicos, as falcatruas, os roubos, as perversões financeiras são de tal monta, que 85% dos portugueses têm direito à greve só por pensarem nesse contraste. No caso dos enfermeiros, que estão para os médicos como os árbitros estão para os jogadores, compreende-se que o convívio lado a lado, em que o papel do enfermeiro é essencial, deva criar amargos de boca justificados na enfermagem. Posto isto, os enfermeiros têm direito à greve, mesmo que os principais lesados – os doentes – não sejam os patrões dos enfermeiros. Ponto final.

Mas continuarão a ter esse mesmo direito quando são subsidiados por donativos que, com rigor, não se sabe de onde vêm, para, em vez de fazerem uma greve gozarem férias ilimitadas, suportadas por dinheiros suspeitos de um crowdfunding que não se sabe de onde provém? A regra de que uma greve corresponde a uma troca entre um bem que se quer alcançar e um sacrifício que se faz, não está subvertida? Está e, por isso, os enfermeiros estão a pisar o risco da tolerância dos que, afinal de contas, enfrentam prolongadamente – os doentes.

Mais ainda – Neste caso, o que consta é que só alguns estão em greve, formando-se uma elite que abusa da imprescindibilidade da sua função para negociar, sem fim à vista, reivindicações atrás de reivindicações. Estranho que assim seja. Se o governo tem espaço de manobra, porque não negoceia de uma vez por todas, fazendo parar esta situação sem controlo? Se o governo tem razão porque não explica à população as suas razões, ou não procede à requisição civil?

Escrevo estas linhas porque conheço de perto casos gritantes de doentes que foram apanhados nesta situação, estão passando mal, que vão piorar por falta de intervenção, que vão morrer em muitos casos, por adiamentos sucessivos até não se sabe quando.

Este impasse resulta numa situação perversa. Estava previsto que o infirmarius medieval fosse um humanitário. Nunca assisti a uma greve tão perturbadora na nossa vida nacional. Lembra-me a greve dos camionistas do Chile, que abriu caminho a Pinochet.

Flagrante rota do INEM: E assim se ficou a saber que o INEM, para transportar um doente em estado grave de Faro para Lisboa, se serviu do helicóptero estacionado em Évora, perto do Algarve, como se sabe… Além disso, ficou-se a saber apenas porque o médico do helicóptero estava numa tourada.

Carlos Albino

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