REPORTAGEM

Só este ano já houve 15 afogamentos no Algarve: Cuidado com os miúdos na piscina!

Têm decrescido nos últimos anos os casos de afogamento de menores no País e também no Algarve. Mas ainda muito está por fazer no que respeita à prevenção. E das próprias leis que regem a segurança infantil à beira de uma piscina, o meio aquático com mais acidentes deste tipo. Em menos de duas décadas, no País, houve 254 mortes de crianças e jovens por afogamento. Na maioria dos casos, evitáveis. Uma interpelação ao âmago de cada um de nós

Nem todos os momentos de uma criança dentro de água são felizes

O Algarve é uma das regiões do País em que se verificam anualmente mais afogamentos de crianças, sobretudo em piscinas, disseram esta semana ao JA fontes da APSI (Associação para a Promoção da Segurança Infantil).


Embora não haja números esmiuçados sobre os incidentes na região na última década, sabe-se que só este ano, até ao momento, já se verificaram 13 afogamentos de menores, quase tantos como em todo o ano passado, em que houve 15 afogamentos. O INEM (Instituto Nacional de Emergência Médica), que forneceu estes dados ao JA, desconhece quantos destes casos resultaram em óbito, uma vez que não faz o seguimento da hospitalização das vítimas.

Em todas as idades, na região do Algarve, houve um total de 98 afogamentos em 2019 e 96 em 2020 e a nível nacional verificaram-se 563 casos em 2019 e 620 já este ano, ainda segundo o INEM.


Restringindo de novo o âmbito da análise aos menores de 18 anos mas alargando ao nível nacional, os números são dramáticos e gritam pela necessidade de, urgentemente, se tomarem medidas que invertam a tendência: segundo a APSI, verificaram-se em Portugal nos últimos 17 anos (até 2019) 254 afogamentos de crianças e jovens que resultaram em morte.


Além das mortes, há a registar 593 internamentos na sequência de afogamento, o que significa que por cada criança que morreu naquele período duas foram internadas.


Porém, nem todas as notícias são catastróficas: entre 2011 e 2018 o número médio de mortes por afogamento diminuiu face aos seis anos anteriores. De 16,5 afogamentos com morte anuais para 9,3 casos fatais por ano).

Mais pequenos afogam-se em meios “construídos”


Em 2020, houve 10 casos de afogamento em crianças e jovens, dos quais 6 foram fatais: 5 mortes aconteceram em piscinas e com crianças com menos de 3 anos, uma criança de 13 anos morreu numa praia fluvial, de acordo com estudos da associação baseados em notícias da imprensa escrita.

Este ano, até 28 junho de 2021, já houve 9 afogamentos de crianças e jovens (até aos 18 anos), 4 dos quais tiveram um desfecho fatal. O padrão de ocorrência foi um pouco diferente, pois aconteceram sobretudo com crianças e jovens com mais de 9 anos: afogamentos em piscinas – 2 crianças de 2 anos (um rapaz que sobreviveu e uma rapariga que morreu).


Afogamentos no mar – 2 raparigas de 9 e 12 anos que sobreviveram.


Afogamentos em rios – 4 casos de rapazes: 1 de 10 anos que foi reanimado e hospitalizado em estado muito grave e 3 que morreram (1 de 14 anos e 2 de 15 anos) que morreram.


Afogamentos em ria – 1 rapariga de 10 anos que sobreviveu.


Helena Sacadura Botte, secretária-geral da APSI, sublinhou ao JA que estes casos estão de acordo com estudos feitos anteriormente que mostram que as crianças mais pequenas se afogam sobretudo em ambientes construídos, em casa, no quintal ou nas proximidades (piscina, alguidar de lavar a roupa, balde de lavar o chão, poça de água da chuva, recipientes para recolher água da chuva), enquanto os afogamentos a partir dos 9 ou 10 anos acontecem sobretudo em ambientes naturais – rios, albufeiras, lagoas e no mar. “Por vezes isso acontece na sequência de brincadeiras perigosas em grupo, mergulhos de cabeça em zonas cuja profundidade ou existência de rochas ou outros objetos submersos desconhecem, porque ficam presas na vegetação, etc”, observa.


Exigências ao poder político


Mas são os afogamentos em piscina e em poços, que afetam os mais novos dentre os mais jovens, que sobretudo preocupam os técnicos da APSI, organização que tudo tem feito para que mudem as regras e a legislação que possam incrementar segurança para crianças e adolescentes.

A obrigação de colocação de vedações em piscinas – meio aquático em que se verificam boa parte dos incidentes que anualmente inundam as páginas de jornais – é uma das exigências ainda não contempladas legalmente que a APSI tem insistido em fazer ao poder político.


Convicta de que não bastam os cuidados dos pais, a associação exige ao poder político que legisle e obrigue quem constrói uma piscina a colocar barreiras, tal como já é obrigatório vedar e tapar um poço existente em meio rural.


As piscinas devem ter vedação para as alturas em que não está ninguém a vigiar. É impossível ter uma piscina sempre vigiada”, sustenta a secretária-geral da APSI.


“Até aos 4 ou 5 anos a vedação tem um efeito importante. Depois dessa idade eles já podem trepar a vedação, mas já houve tempo para lhes dar aulas de natação, e para eles terem um mínimo de conhecimentos. Não devemos tirar a vedação só porque a criança atingiu os cinco ou seis anos. Ela vai servir para aquela criança mas também para outras gerações, beneficiando o coletivo. Até uma família que não tenha crianças mas tenha uma piscina não está livre de que o vizinho do lado vá para lá brincar. A vedação deve ser transparente, não escalável e ter no mínimo 1,10 metros de altura sem ter aberturas superiores a 9 cm, e ter um portão que abra para o exterior com fecho automático”, sustenta a dirigente associativa.

Quando os adultos se distraem a conversa

E para ilustrar a importância da barreira dá o exemplo do caso de uma criança que morreu afogada porque acordou mais cedo da sesta, quando os adultos repousavam, apanhou a porta aberta, foi para o jardim e… depois para piscina.


No entanto, a organização pede aos pais que, além das vedações – que é a estratégia de prevenção mais eficaz – quando as crianças estão dentro do recinto da piscina esteja sempre um adulto a tomar conta. “Ele está a vigiar e deve estar preparado para se atirar à água e saber nadar e deve estar focado nas crianças, não deve estar a fazer outras coisas. E periodicamente ele deve ser revezado por outros adultos”.


Proteções físicas à parte, as distrações são, de resto, o busílis da questão no que respeita a afogamentos de crianças, sobretudo as de muito tenra idade. “Os pais ainda confiam demasiado na vigilância, que é a estratégia que mais falha, porque somos humanos. Se estiverem dois adultos ou três a tomar conta de crianças é muito mais fácil eles distraírem-se à conversa uns com os outros”, afiança a dirigente da APSI, salientando que em dias de festas há sempre um risco acrescido em casas com piscina: “Acontece muito quando há muita gente presente, porque todos acham que alguém está a tomar conta das crianças e de repente uma criança desaparece e já está no fundo da piscina”.


Além da vigilância e das vedações, deve haver outros cuidados, prévios às cercanias da massa de água, segundo enfatiza Helena Sacadura Botte: “Não deixar mesas ou cadeiras que a criança possa utilizar para trepar. Basta um alguidar que vira ao contrário ou um triciclo onde se consiga empoleirar”, salienta, chamando a atenção para uma característica física que, no caso das crianças, faz toda a diferença: “Como a cabeça da criança é grande e pesada, ela não se atira à água: é a própria cabeça que cria o desequilíbrio, quando ela espreita, e ela aterra de cabeça na água. O centro de gravidade de uma criança muito pequena é mais elevado”.

Afogado no alguidar do bacalhau


Isso e o pequeno tamanho do petiz leva a perigos insuspeitos: há mortes que têm ocorrido até em simples baldes de recolher a água da chuva. Há tempos, uma criança ia morrendo afogada num alguidar de demolhar bacalhau. Ficou com lesões vitalícias graves.


A co-líder da APSI acrescenta: “O ano passado houve a morte de uma criança numa piscina insuflável, que os adultos não consideram um produto perigosos, por ser específico para crianças. É fundamental despejá-la logo a seguir à utilização. Há incidentes em tanques de rega, que devem estar vedados. Os poços devem estar cobertos com uma tampa forte e presa com um cadeado. É obrigatório por lei mas falta fiscalização e implementação da legislação. A lei diz que os poços devem ter um murete e estar cobertos. Quantos poços temos destapados?”, questiona.


A associação não se cansa de repetir que 80% dos acidentes domésticos e de lazer (em que se incluem os afogamentos) são evitáveis. “Podemos evitá-los através de estratégias que devemos implementar antes que a tragédia aconteça. Exemplos: ter uma cancela nas escadas quando temos uma criança em casa com menos de dois anos. Ela não vê as escadas, vê risquinhos, não tem noção da profundidade e atira-se. A cozinha é a divisão mais perigosa. E às vezes basta uma cancela à porta para evitar o acidente. Ou não colocar produtos perigosos no armário por baixo do lava-loiças”.


Para ilustrar a importância da prevenção, aponta um caso arrepiante, que não tem a ver com afogamentos, mas com quedas: numa casa do Algarve os pais estavam a dormir e acordaram com alguém a tocar-lhes à campainha. Acordaram para um pesadelo. Estava muito calor e tinham deixado uma greta da janela aberta mas a cama de grades estava ao pé da janela e o miúdo trepou para o parapeito. Caiu à rua e acabou por morrer.

“Estar lá”, no momento da maior dor do mundo

Há profissões bem duras. Lidar com o turbilhão de sentimentos e pensamentos que assolam um ser humano na hora da morte de um filho de tenra idade é uma das vertentes mais violentas de uma dessas profissões, exercida em Portugal por dezenas de homens e mulheres: os psicólogos do Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM). São 21, a que em breve se juntarão mais sete.


“É um trabalho muito duro”, concorda Sónia Cunha, 43 anos, psicóloga do Centro de Apoio Psicológico e Intervenção em Crise (CAPIC) do INEM. E põe o dedo na ferida, ao fazer adivinhar que a profissão, ainda que exija algum sangue frio, dispensa carapaças artificiais para fugir ao contágio da dor alheia: “Na altura em que perdermos a empatia e a capacidade de nos identificarmos e percebermos a dor do outro não somos psicólogos, nem humanos. Temos de empatizar e compreender mas com o distanciamento que nos permite ser um fator de ajuda e capacitar as pessoas para lidar com a adversidade”.


Existente desde 2004, o CAPIC do INEM é solicitado sempre que a situação de urgência exige apoio psicológico. “Quando recebemos um pedido de ajuda numa fase inicial podemos dar início à atuação. São chamadas muito exigentes para nós porque e sempre alguém aflição que está do outro lado. Há muito stress”, explica.


Os psicólogos deslocam-se em equipas de dois (um psicólogo e um auxiliar), num carro ligeiro atrás da ambulância, que muitas vezes vai atrás da Viatura Médica de Emergência (VMER) em que viaja a equipa médica.


Enquanto a equipa médica está focada na recuperação da vítima, a equipa de apoio psicológico fica junto da família: avalia os recursos familiares, apercebe-se de como está organizada, com quem estão e as necessidades que têm: “São os dois pilares que avaliamos numa primeira análise, os recursos e as necessidades”.


“Temos que nos aperceber dos recursos internos: que capacidade é que a pessoa tem, a sua capacidade de autorregulação, de se controlar apesar da situação extrema, se estão no uso das suas capacidades mentais e cognitivas, ou não. Há situações em que tem que se afastar, estabilizar do ponto de vista emocional para depois chegar à fase do processamento da informação”, diz.


Um processamento difícil em situações como o afogamento de um filho, em que não há esperança. “Não há esperança na recuperação de uma vida humana, mas há a esperança de se integrar no percurso de vida e ser capaz de lidar com isso. A esperança que existe é na recuperação e capacitação da própria pessoa”, sublinha Sónia Cunha.


E por vezes a única saída é assumir a duríssima realidade: “Não devemos recorrer a confortos superficiais e vazios do tipo ‘vai correr tudo bem’. O importante é a validação. É normal o desespero, a angústia, o descontrolo. E esta validação é fundamental, ajudar a pessoa a compreender-se e ativar as suas capacidades racionais. Nos momentos de stress a emoção sobrepõe-se à racionalidade: diminuímos a capacidade de pensar e aumentamos a valência emocional, As nossas emoções tomam conta de nós. E o que procuramos, nós psicólogos, nestas situações, é o equilíbrio entre estas duas capacidades, não é desligar as emoções, que elas têm que estar presentes. Aceitar e começar a ativar as suas estratégias”.


Um dos sentimentos mais terríveis com que têm que lidar nos acidentes na água com crianças é o da auto-culpabilização dos tutores ou pais: “Há que processar a interiorização do acontecimento, mesmo que não seja factual. O acontecimento é involuntário e é muitas vezes por aqui que tentamos desconstruir esta culpabilização interna. Não foi voluntário. Mas o ser humano tenta sempre a explicação e isso leva a processos de culpa, que acontece muito nos afogamentos”.


Outra das feridas profundas nestes casos é a cisão familiar que sobrevém baseada na culpabilização do outro. “São fendas profundas que ficam na família, às vezes irreversíveis”, conclui Sónia Cunha.

Joao Prudêncio

(reportagem publicada na edição impressa de 5 de agosto de 2021)

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