REPORTAGEM

Trezentos milhões da Europa pingam para estradas e barragens

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A maioria dos presidentes de Câmara algarvios quer usar uma parte dos 300 milhões de euros europeus que vêm para o Algarve para ajudar a resolver o problemada falta de água na região, de longe o problema regional que mais os preocupa. Mas há muitos outros.

De acordo com uma pequena inquirição a uma amostra de oito dos 16 concelhos algarvios, quatro com territórios mais litoralizados (VRSA, Faro, Lagoa e Lagos) e outros quatro com territórios mais interiores (Alcoutim, Castro Marim, Silves e Aljezur), a seca, mas também as redes de transportes, a saúde e o tecido empresarial são os setores onde os autarcas mais desejam “despejar” os milhões que chegarão da Europa. O problema, reconhecem todos, é que 300 milhões são “uma migalha” face às necessidades da região. São precisos muitos mais milhões. E como se pode ver abaixo, nem há unanimidade sobre quais são essas necessidades…

Conceição Cabrita – Vila Real de Santo António
Convencida de que a resolução de problemas de âmbito regional, como a água e a saúde, deveria ficar de fora do “bolo” dos 300 milhões, a autarca elenca algumas prioridades de âmbito local. Mas não esquece problemas regionais, como a linha do Algarve e a EN125.


Infraestruturas viárias: “É necessário fazer a requalificação da EN125 no troço do sotavento. O que lá fizeram foi um remendo e agora era necessária uma intervenção de fundo. Entre Aldeia Nova e Vila Real nós temos as coisas mais ou menos controladas.

Em Cacela está complicado porque não foi feito nada”. “Modernização da linha férrea porque sistematicamente fazem-nos promessas e estudos mas na prática não existe nada”.


Frentes ribeirinhas: Requalificação da frente ribeirinha de VRSA e requalificação do cais comercial. Ao requalificarmos toda esta zona dá logo outra frente de rio e também potencia o rio Guadiana. Isto é um desejo dos autarcas do Guadiana até ao Pomarão, ou seja de VRSA, Castro Marim e Alcoutim.


Cluster do mar: “Seria importante a nível do cluster do mar. Parque Industrial da Zona de VRSA, que há muito tempo temos programado mas não temos condições para avançar com isso; temos procurado várias grandes superfícies comerciais para a industria da aquacultura e não temos instalações para tal”.

Francisco Amaral – Castro Marim
O autarca apresenta literalmente meia dúzia de projetos para investir a verba e, sucinto, não gasta mais de dois minutos para o enunciar. Podem-se enquadrar os projetos em três grupos: rede viária, problema da água, diversificar empresas e saúde. “E gastava os 300 milhões! E tudo isto ajudava ainda a resolver o problema da monocultura do Turismo”, remata.


Rede viária: “Abolia as portagens da Via do Infante e acabava de requalificar a EN125 de Olhão até VRSA”.

Problema da água: “Fazia a barragem da Foupana e fazia a conduta de água doce do Guadiana da Mesquita ao Pomarão com uma conduta de água até à barragem de Odeleite”.


Diversificar empresas: “criava mais parques empresariais no Algarve”.

Saúde: “Diminuía substancialmente os vergonhosos e desumanos tempos de espera por consultas de especialidade e cirurgias no Hospital de Faro”.

Hugo Pereira – Lagos
Tal como o seu colega de Lagoa, o autarca de Lagos está convencido de que já existe “mais ou menos um destino” para os 300 milhões e ele será a diversificação da economia. “As necessidades do Algarve são muito maiores: a deslocalização do hospital de Lagos, uma ferrovia em condições, o resgate da EN125 e da A22 e o problema da água, mas isso passa ao lado dos 300 milhões”. Acrescenta as pescas, a diversificação económica e novos clusters do Turismo como objetivos prováveis para essa verba.


Pescas: “O mal foi abatermos os barcos. Temos aqui uma fábrica que tem dificuldade em conseguir ter peixe para trabalhar em larga escala. O Algarve com o mar que tem tem condições para uma resposta”.


Diversificação económica: “É um sítio magnifico para se viver e também para se trabalhar. Existe muito trabalho que pode ser feito à distância e não tem que ser feito nas grandes cidades e o Algarve tem todas as condições para apostar forte numa indústria de tecnologias de informação”.


Novos clusters do Turismo: “Precisamos de um turismo de 12 meses. De natureza, histórico, gastronómico, de congressos, de saúde, do golfe, o Turismo náutico. Até o turismo do autocaravanismo, que às vezes é um mal amado.

José Gonçalves – Aljezur
Acessibilidades, água e diversificação da economia são as apostas de José Gonçalves como destinos dos 300 milhões algarvios.


Acessibilidades: “Nós aqui em Aljezur ficamos isolados muitas vezes porque a Via do Infante chega a Bensafrim e não chega ao nosso concelho. De Norte falou-se sempre muito das acessibilidades, mas a verdade é que, apesar de a estrada não estar má, não está bem servida de acessibilidades”.


Água: O dinheiro em princípio não chegará para resolver todo o problema da seca. Haverá dinheiro para isso noutra situação.

Mas a questão da água coloca-se hoje, como antes. Temos uma realidade muito nossa, temos o perímetro de rega do Mira que apanha metade do concelho e que são 1200 hectares dependentes da barragem de Santa Clara, que está nas lonas.


Diversificação da economia: Tem que haver a captação de outro tipo de investimentos que não só o turismo. De turismo estamos servidos e é precisa uma complementaridade a outro nível. Temos que ter pólos industriais de uma indústria não pesada, que possa trazer investimentos de alta tecnologia. Energia limpa, energia solar ou eólica.

Luís Encarnação – Lagoa
De acordo com Luís Encarnação, os 300 milhões serão um valor específico para o apoio às empresas. “Mais importante do que esses 300 milhões, que até é bastante pouco, são os 42 mil milhões da “bazuca” europeia que vão chegar ao País, uma parte dos quais virão para o Algarve”. Com essa condicionalidade, o autarca aponta caminhos: vias de comunicação, água e apoio à criação de empresas.


Vias de comunicação: “A requalificação da EN125. Estas obras são estruturantes. Temos que ter uma perspetiva de solidariedade regional e não apenas concelhia e local. Eu preciso de ter turistas espanhóis e preciso de ter boas vias desde Espanha até Lagoa sem terem que vir obrigatoriamente pela Via do Infante”.


Água: “Tem que haver uma posição firme da região, uma discriminação positiva para que os municípios do Algarve possam aceder a esse dinheiro para fazerem a remodelação das redes de distribuição de água em baixa. Grande parte do problema da falta de água está nas perdas e aí nas roturas. Parte dessa verba que vem para Portugal para estimular a economia pode vir para essas obras”.


“Não podemos ficar apenas na dessalinização, nem na Foupana, nem na captação no Guadiana. Tem que haver um conjunto de medidas articuladas”.


Criação de empresas: “O Algarve é um bom sítio para se estar em férias mas também para se trabalhar e estudar. Há uma capacidade do Algarve em captar investimento, massa crítica e talentos ara atrairmos outros serviços. Empresas que nada tenham a ver com o Turismo. Temos um clima fantástico e um sol todo o ano. Não podemos ficar só dependentes do turismo”.

Osvaldo Gonçalves – Alcoutim
Mais vias de comunicação, resolver o problema da falta de água, acabar com a monocultura do Turismo. Resumidamente, estes são os itens para onde, na opinião de Osvaldo Gonçalves, deverão ser canalizados os 300 milhões.


Nas vias de comunicação: “Temos no interior condições ótimas para o desenvolvimento do Turismo e para isso precisamos de coisas fundamentais: vias de comunicação que façam uma ligação fluida e rápida entre o interior e o litoral. Temos o IC27 que nos liga ao A22, que deu uma melhoria significativa na nossa qualidade de vida.


“Precisamos de uma via que ligue Faro a Mértola, Almodôvar. Uma via de comunicação que permitisse que as pessoas em 20 minutos fizessem o trajeto da serra, facilmente se arranjava alojamento para essas pessoas. E tornar a EN124 numa via rápida era outra ideia”.


Na água: “Temos que resolver o problema da seca. Sou defensor de que a barragem da Foupana deve avançar. Quando a chuva cai, se não tivermos infraestruturas para segurar a água, ela vai-se embora. Captar água no Guadiana é outra ideia, mas podemos fazê-lo mantendo barragens”.


Monocultura do Turismo: “Temos que acudir ao desemprego e à pancada que vai levar o tecido empresarial, temos que tentar minimizar essa parte”.

Rogério Bacalhau – Faro
Apostar na mobilidade e transportes, na resolução do problema da seca e na diversificação da economia são as soluções de Rogério Bacalhau para os 300 milhões.


Mobilidade e transportes: “Na rodovia temos que terminar a requalificação da EN125. Devíamos ter uma ligação ferroviária a Espanha. O único troço que ainda vai funcionando é entre Faro e Olhão, que tem as estações no centro da cidade. Em Albufeira, para eu ir apanhar o comboio, tenho que fazer sete quilómetros. Criar maiores condições de mobilidade entre as diversas cidades e fazer algumas ligações às própria cidades”.


“Precisamos de ter uma estação intermodal na zona do Patacão. Para termos transportes de qualidade e que façam a distribuição para todo o Algarve temos que ter um espaço intermodal, como linhas ferroviárias e rodoviárias que a partir dali a gente chegue a qualquer espaço do Algarve ou a Lisboa”.


Seca: “Nós arriscamo-nos a ter falta de água um destes anos. Estamos muitos dependentes dos ciclos de chuva. Há três soluções: a do Pomarão (ir buscar água ao Guadiana), a solução mais rápida mas mesmo assim leva 3 ou 4 anos; depois há as barragens e depois há a dessalinização. Não tenho preferência porque não há estudos, mas as Águas do Algarve tinham que os ter”.


Diversificação da economia: “Devemos investir parte deste dinheiro na diversificação da economia, infraestruturas e transportes. É preciso ter um plano. Os 300 milhões são migalhas, gastam-se num piscar de olhos em duas ou três destas coisas. Há-de vir mais dinheiro, não vamos viver eternamente com estes 300 milhões”.

Rosa Palma – Silves
Melhorar as infraestruturas do interior, melhorar as condições de saúde, renovar as condições de transporte e circulação são as prioridades de Rosa Palma para os 300 milhões.


Nas infraestruturas do interior: “Temos um Algarve interior muito esquecido. É necessário fazer com que os poucos que residem no Algarve interior se mantenham lá e se torne atrativo e isso só se consegue com melhores infraestruturas. É preciso fazer com que quem vive no Algarve interior se mantenha lá”.


Saúde: “Faria o hospital central na zona do barrocal ou mesmo da serra. Mas, antes disso, o hospital que temos no Barlavento tem condições para crescer. Eu primeiro iria munir aquilo que já existe para tentar melhorar e tornar atrativo. Depois sim, se não houvesse hipótese de mais crescimento, aí sim pensaria num novo hospital. Porque é mais fácil melhorar o que já existe do que fazer de raiz”.


Transporte e circulação: “Nas vias de comunicação tem que haver uma resposta. As pessoas têm que sentir que estão a optar por transportes públicos mas que vale a pena. Temos que ter políticas verdes e elas passam por uma resposta pública atrativa.

Os autocarros têm mais de 20 anos, é preciso renovar”.­

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