VAI ANDANDO QUE ESTOU CHEGANDO

Carlos Figueira

A recente remodelação do governo promovida por Costa surpreendeu, senão a totalidade do mundo político e mediático representado por um rol extenso de comentaristas mas, a meu ver, os estragos maiores fizeram-se sentir, em toda a direita partidária que perante a circunstância, ficou gaga, face a tal ousadia, reagindo de uma forma que tornou mais visível a sua desorientação, através de revindicações soltas e sem sentido, face à situação que politicamente se apresentava.

Nesse sentido e sublinhando a arte política que mais uma vez o atual primeiro-ministro revelou, ao aproveitar a demissão do Ministro da Defesa para, como é comum dizer-se, “com uma cajadada matar dois coelhos” aproveitou a oportunidade para reconstruir uma equipa para atacar o que resta de tempo até às próximas eleições legislativas a realizarem-se dentro de um ano. Contudo, é necessário também ter presente que a remodelação só acontece num quadro em que está garantida a aprovação do Orçamento de Estado pelos acordos concluídos com os partidos à esquerda e o apoio antecipado de Marcelo.

Todavia também convém separar responsabilidades e motivos que justificam tal remodelação. Em primeiro lugar, no que respeita à defesa, trata-se de assunto à parte do resto. Foi o ministro a demitir-se, o que não aconteceu com os restantes, o que também deixa em aberto o desvendar do imbróglio de TANCOS, sobretudo quem roubou e quem engendrou a operação ridícula da entrega das armas, na qual será difícil admitir que altas patentes militares de nada tivessem conhecimento.

No resto da remodelação com a demissão de ministros alvos todos eles de contestação, fica de fora a educação. Na saúde, com vários sinais de contestação oriundos de insatisfação por parte de utentes, mas também críticas nas quais há que referir, de entre outros, a do Bastonário dos enfermeiros, claramente alinhado com a direita, mas igualmente de todos os interessados em conhecer as conclusões a que chegou a comissão nomeada pelo governo para produzir uma nova lei de bases para o Serviço Nacional de Saúde. De resto na Economia tínhamos um ministro inexistente, na Cultura trata-se de um dos ministérios mais difíceis de gerir, já que o que se reivindica é sempre mais dinheiro, independentemente da situação que o País pode atravessar. Resta neste rol a educação que ficando de fora, e que cada mais assume um combate político entre a Fenprof e o próprio primeiro-ministro.

Mas os contornos da remodelação traduzem no plano político realidades que importa sublinhar, entre as quais, o facto de contra todas conjecturas da direita, centro e extrema direita, expressas por um conjunto de comentadores que dominam a opinião política dos meios de comunicação, que desde o início do acordo à esquerda, anunciavam a sua morte para o dia seguinte, revelou-se contrário a tais perspetivas, ao ponto de se verificar a sua existência até final da presente legislatura, na demonstração que independentemente de discordâncias de fundo sobre várias matérias, existem pontos comuns em muitas outras que tornam possível a permanência de acordos de regime com a presença de forças de esquerda. É a existência de tal facto que pelos vistos continua presente no pensamento das forças políticas que suportaram tais acordos que inquieta a direita no seu conjunto.

Carlos Figueira

carlosluisfigueira@sapo.pt

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