VAI ANDANDO QUE ESTOU CHEGANDO

Carlos Figueira

Num tempo, no plano social e político, marcado por vários conflitos, é certo que centrados na área do funcionalismo público e também, não há que o ignorarmos, em torno dos trabalhadores do porto de Setúbal, cujo desfecho foi alcançado, na última semana, com ganhos para os trabalhadores sobretudo na integração como efetivos de um número significativo de precários, estamos na minha opinião longe de um ambiente próximo de um “Estado de Sítio“.

Mas num quadro efetivamente marcado por reivindicações do sector público, alguns dos quais se arrastam desde há meses, casos mais marcantes na área da educação, cujas negociações prosseguem e espero bem que finalmente resultem num acordo no qual as justas posições dos trabalhadores se conformem com as condições financeiras do País para acolhê-las, existem dois outros acontecimentos nesta área que chamaram particularmente a minha atenção.

Um deles a manifestação convocada até agora anonimamente para a próxima sexta-feira, manifestação tida como réplica às ocorridas em França, aqui também anunciada para todo o País, a justificar por parte das forças de segurança uma mobilização de efetivos, singular pela sua extensão, no País pós 25 de Abril. O que, a meu ver, só é justificável por informações que as forças de segurança disponham e que a opinião pública não tenha acesso ou, porventura, como elemento dissuasor da mesma.
Seja como for o ambiente social que se vive no País não é comparável com França nem eventualmente com Espanha, País que pelos vistos está também a ser alvo de iniciativa semelhante. Mas no que respeita ao nosso País e embora o descontentamento que existe motivado por justas reivindicações contra trabalho precário e rendimento auferido, tem justificações diferentes das que motivaram a adesão às manifestações em França, marcadas por protestos contra direitos retirados aos trabalhadores por decisões do governo.
Neste contexto importante foi a demarcação desta iniciativa, até agora da responsabilidade de redes sociais cuja responsabilidade é por demais difusa, que as duas centrais sindicais CGTP e UGT se tenham demarcado da mesma, bem como atitude idêntica tomada pelo PCP.

Nesta área assume igualmente particular importância, pelo ineditismo que a envolve, a greve marcada pelos enfermeiros dos blocos operatórios, da responsabilidade de dois sindicatos criados há cerca de um ano, claramente encostados à direita, e que tem como consequência imediata o adiamento de milhares de intervenções cirúrgicas, pondo em causa a saúde de milhares de cidadãos.
Greve marcada pela novidade de pela primeira vez no Portugal democrático ser financiada por privados facto que, pelo que o Expresso da última semana relata, a partir de contribuições de poucos euros, já tenham obtido, no tempo de uma semana, mais de 300.000 mil e esperam atingir, até final do ano, 400.000. “Êxito“ que justifica interrogações sobre a real intenção da greve, independentemente da justeza eventual das suas reivindicações, e quem de facto por interesses próprios, a estar a subsidiar em defesa do negócio privado da saúde, naturalmente interessados no desprestígio e na validação do Serviço Nacional de Saúde, o garante de todos os portugueses ao acesso à saúde como direito constitucional.

Direito que pela parte do governo, expresso nas declarações produzidas pela atual ministra da saúde, tem de ser defendido, declarações a contrastar com as do Presidente da República, nas quais exprime o desejo de consensos com o PSD em torno da nova proposta da nova Lei a discutir na AR, palavras que só podem ser entendidas em defesa das instituições e negócios dos privados, quantas vezes pagas pelo Orçamento de Estado, ou seja a maioria dos portugueses.

Carlos Figueira

carlosluisfigueira@sapo.pt

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