ENTREVISTA

Afonso Dias: “Não tenho nada de que me arrepender”

Afonso Dias

Algarvio por opção há quase quatro décadas, Afonso Dias nasceu em Lisboa há 71 anos e é na capital que assiste em direto e a cores à Revolução dos Cravos, que agora faz 47 anos. Esteve na Constituinte como deputado único da UDP, votou a primeira Constituição da Democracia, mas desde muito antes andou nas cantigas e, com José Mário Branco, fundou o célebre GAC – Grupo de Ação Cultural. Residente no Algarve desde 1984, Afonso Dias continua a cantar, dizer e fazer poesia, brilhar nos palcos. E segue sonhando e fazendo sonhar, o homem que nega ter tido um posicionamento radical como deputado e jura que não tem nada de que se arrependa!

JORNAL do ALGARVE (J.A.) Lembra-se do seu dia 25 de abril?

Afonso Dias (A.D.) – Lembro muito bem. Morava na margem sul do Tejo, na Cova da Piedade e trabalhava na Graça, em Lisboa. Fui apanhar o barco a Cacilhas para ir para Lisboa. Eram oito da manhã, apanhei o último barco que fez a travessia. Estava muita gente em Cacilhas, já se ouvia desde casa que havia um golpe de Estado, um tumulto, não se sabia ao certo. Cheguei ao Terreiro do Paço e dei-me logo conta do que se passava.

J.A. – Apanhou um barco para a Revolução…

A.D. – Sim. Presenciei aquela cena na Rua do Arsenal, em que as forças revoltosas e a GNR estão frente a frente. O Assunção, oficial do Salgueiro Maia, sai e o brigadeiro Junqueiro dos Reis [da GNR] também. E esse tipo agrediu o Assunção! A história está descrita naquele livro maravilhoso, “Os Rapazes dos Tanques”, do Adelino Gomes. “Arraso aquela merda!” E o gajo [da GNR] fechou-se dentro da lata! Aquilo salvou o 25 de abril!

J.A.E o resto do dia, como foi?

A.D. – Estive por aí, depois fui para o Largo do Carmo e passei lá o resto do dia.

J.A. – Que idade tinha?
A.D.
– Tinha 23 anos.


J.A. – E estava a torcer “pelos índios”! Já tinha alguma consciência política?
A.D. –
Sim, eu estava organizadíssimo já! Já tinha levado uma data de lambadas da polícia.


J.A. – O que fazia na vida, na altura?
A.D. –
Trabalhava numa cooperativa de design e artes gráficas que tinha sido constituída por malta que tinha saído da prisão, que era a Praxis, na Graça. Eu não era militante de nenhum partido. Estive próximo do PC, quando vivia em Vila Franca de Xira. Desde os 16 anos estive em associações culturais. A minha universidade foi a secção cultural da União Desportiva Vilafranquense, por onde passou muita gente, com o PC como força predominante. Mais tarde aparece o MRPP, de que também tive alguma proximidade.


J.A. – E sentia-se que o regime ia cair?
A.D. –
O 25 de abril apanhou-me de surpresa. A gente sabia que as coisas se encaminhavam para que o regime caísse, mas ninguém fazia a menor ideia que ia aparecer aquele tipo de cenário, com a tropa a organizar-se e tal. Ou melhor: que a organização da tropa tinha outro projeto. Que uma coisa que começou por ser corporativa, mais ou menos sindical, acabasse por redundar num movimento político com aquele alcance. O movimento dos capitães era reivindicativo. Como eram precisos mais oficiais por causa da guerra, começaram a formar-se uma série de milicianos. Não eram os alferes que saiam da Academia Militar. Havia esses, mas não chegavam e então havia uma série de oficiais, os aspirantes, que faziam a recruta em Mafra e iam para a guerra de África com os mesmos privilégios dos que andavam no Colégio Militar há uma data de anos. Eram aspirantes, tenentes e capitães, mas não de carreira. Eram oficiais milicianos. O Movimento dos Capitães era para exigir mais direitos para esses tenentes e capitães, que era quem comandava a tropa no terreno.


J.A. – Nesse dia, chegou a ia à Rua António Maria Cardoso [sede da PIDE], ou não?
A.D. –
Sim, fui.


J.A. – Então não assistiu ao tiroteio que fez quatro mortos por acaso?
A.D. –
Foi por acaso porque tinha lá estado umas duas horas antes dessa manifestação. Eu passei o dia por ali. Quem estava na rua não tinha informação de que as coisas estavam tão bem resolvidas como estavam. Havia pessoal com uns transístores, mas havia pouca informação. Isso sabemos agora.


J.A. – Voltando ao antes do 25 de abril: nunca chegou a estar num partido.
A.D. –
Isso não, mas toda a gente que era da oposição estava organizada de alguma maneira. Ou ligada a movimentos. Na crise de 1969 eu fui a Coimbra e andei por lá com aquela malta, eu que nem universitário era. Nem fui em 73 a Aveiro por mando de nenhuma organização. Mas fui porque estava engajado em movimentos informais. Fui às manifestações anti-coloniais todas.


J.A. – Chegou a ir à tropa? Ao ultramar?
A.D. –
Eu sou do campo, de uma família pobre e não tinha cunhas de ninguém. Estive mobilizado três vezes para ir para a guerra e à terceira foi o comandante de batalhão que me disse “você refile, que a gente vai apresentar isto ao comandante (do Regimento de Artilharia 7), em Leiria, onde eu estava em 1969. E estava mobilizado para Timor, já tinha um ano e tal de tropa. Das outras vezes tinha estado mobilizado para a Guiné e para Moçambique e fui desmobilizado não faço ideia porquê.


J.A. – E ainda antes da Revolução chegou a sofrer, fisicamente?
A.D. –
Sim, levei umas lambadas, em vários quartéis da GNR e também na [Rua] António Maria Cardoso. Nunca fui a julgamento ou estive preso. Acharam que eu não teria interesse por aí além. Mas vivi com o José Pedro Soares, porventura o tipo mais torturado da história da repressão em Portugal.


J.A. – O Algarve ainda não tinha entrado na sua vida. Onde nasceu?
A.D. –
Fui nascer à maternidade Alfredo da Costa, mas sou do topo do Alentejo.


J.A. – E no PREC, onde é que o vamos encontrar?
A.D. –
Faz-se o 25 de abril e poucos dias depois já eu estou a ter reuniões… Porque eu estava há muitos anos ligado à malta das cantigas, Zeca incluído. Pouco depois do 25 de abril, vou a uma sessão de canto livre â Incrível Almadense. Ia lá cantar o Zé Mário Branco, Tino Flores e Fausto. Fui lá com a ninha mulher. Passaram-me a viola. Eu só conhecia o Fausto, que me desafiou a cantar. Nessa noite fomos parar a casa do Fausto e nasceu o GAC – Grupo de Ação Cultural. O Fausto saiu logo depois e nem participou no primeiro álbum. Eu estive do princípio até ao fim e sempre por dentro, só me suspendi no período em que estive na Constituinte. Até diziam no Parlamento que eu era o deputado do GAC.


J.A. – Há uma rutura de uma certa classe artística com o PCP. Fez parte dessa rutura.
A.D. –
Sim, o pessoal próximo do PCP e o pessoal que estava em rutura, que eram os pró-chineses. A rutura no Movimento Comunista Internacional nos anos 60. A partir de finais dos anos 50 foram-se criando correntes. Eu pertencia à corrente dos marxistas-leninistas.


J.A. – Era maoísta…
A.D. –
Fui, de algum modo, mas não por aí além. Nunca achei grande piada a esse folclorismo e àquela linguagem. Quando há o 25 de abril somos todos democratas. Mas depois começa-se a verificar que os democratas entre si também têm diferenças de opinião, orientação, projeto. Houve um grande encontro da canção popular portuguesa no Porto, no princípio de maio de 74, onde eu não fui por não ter dinheiro, a que foi toda a malta que cantava. Esteve lá o Zé Mário, Manuel Freire, José Jorge Letria, Adriano Correia de Oliveira… e vamos criar aqui um grande coletivo desta malta. Só que as diferenças começaram a notar-se logo. E houve gente que não quis entrar naquele coletivo e que acabou por juntar os cantores próximos do PCP, com o [Fernando] Tordo, o Paulo de Carvalho, o [Carlos] Mendes. E houve uns que ficaram fora disto, sempre independentes: o Sérgio Godinho e o Zeca. Os outros juntaram-se no GAC. O Zé Mário…


J.A. – Você, o Tino Flores…
A.D. –
Sim, mas depois apareceram o Fernando Laranjeira, o AP Braga, o António Macedo… Tudo malta muito importante… A UDP nasce em novembro desse ano [1974].


J.A. – Adere imediatamente à UDP?
A.D. –
Eu sou da fundação da UDP. Sócio-fundador!


J.A. – Tinha aderido a algum movimento pré-UDP?
A.D. –
Sim, havia vários movimentos. CMLP, OCMLP, que dá origem à UDP, que resulta da fusão de alguns grupos, a FEC-ML…


J.A. – E como é que chega a cabeça-de-lista da UDP?
A.D. –
Não chego. O que acontece é que iniciámos o processo de legalização da UDP e quem vai para cabeça-de-lista é o herói da resistência que havia ali em casa, o médico João Pulido Valente, que tinha estado preso, 11 anos em Peniche, torturado, etc. Foi o candidato natural. E depois como aquilo era uma organização operária, o segundo nome da lista era o Américo Duarte.


J.A. – Que foi o primeiro deputado da UDP.
A.D. –
Exatamente. Por razões muito lá dele, o João Pulido Valente não quis.


J.A. – E como é que o Afonso entra?
A.D. –
O Américo Duarte era muito truculento. E ao fim de uns meses chegou-se a um acordo. Eu era da Comissão Permanente da UDP, o Américo Duarte não. Mas não foi por isso, achou-se que era demais! E o Américo acabou por se querer ir embora também. E arranjou-se um entendimento. Ele esteve lá uns meses e eu entrei, para aí em novembro.


J.A. – Esteve então de novembro de 75 até abril de 76, quando se vota a Constituição…
A.D. –
Votei a Constituição em 2 de abril de 76.


J.A. – Então assiste àquele episódio do cerco do Parlamento pelos trabalhadores da Construção Civil.
A.D. –
Assisto cá de fora, com os trabalhadores da Construção Civil. E já era deputado.


J.A. – Isso foi em novembro de 75, antes dos episódios militares do 25 de novembro. Fazia-se nessa altura a Constituição. Levou um ano a fazer…
A.D. –
Onze meses. E não imagina o trabalho que deu. Produzir uma Constituição a partir de nada, sem texto para rever! Havia uns tipos muito bons ali! Aquela Assembleia tinha um nível de qualidade muito alto. O Jorge Miranda, o Vital Moreira, o Carlos Candal, o José Luís Nunes… e a partir do cimento que eles transportaram para a discussão é que se foi construindo aquilo. Tinha horas e horas de comissões, disto, daquilo, daqueloutro e de todo o lado!


J.A. – E então naquela altura, com o País a ferver…
A.D. –
No período de antes da ordem do dia a Assembleia respirava com o que vinha da rua, que era sempre muito. Eu, o PC, mas também o PS, trazíamos para dentro da Assembleia, que não tinha poder nenhum (a não ser de influência e opinião), nesse período que era suposto ser 15 minutos nunca era menos de uma hora, às vezes ocupava a sessão quase toda! Foram os tempos mais vivos do 25 de abril.


J.A. – O seu discurso ainda era mais radical. Porque representava um partido de extrema-esquerda. Ou não?
A.D. –
O que é um discurso radical? Convido-o a ver os diários da Assembleia e o que eu discursei por lá. Se havia coisa que o deputado da UDP não era, era panfletário. De um modo geral. Fazia com frequência referência às coisas que se passavam cá fora, mas isso também o PC fazia. Aquelas coisas que a malta agora diz que foi o PREC foi o período em que as pessoas assumiram pela primeira vez uma série de coisas importantíssimas na vida do País. As grandes transformações na vida do País que ainda hoje se manifestam na vida das pessoas com naturalidade foi naquele período que ocorreram. E sem a existência de um poder legislativo. As pessoas assumiam coisas que nem sabiam o resultado que iam dar, mas tinha que se mudar coisas.


J.A. – O poder esteve, literalmente, na rua…
A.D. –
Sim. Dou-lhe um exemplo. Uma noite, que eu ia a subir a Conde Redondo ouço um burburinho, estavam pessoas num gaveto. Era um grupo de cabeleireiros e cabeleireiras que estavam a apear a direção corporativa do sindicato, que não servia para nada, era uma cambada disto e daquilo! E eu acabei a noite a regular a assembleia. “Mas eu não sou cabeleireiro!”, “Então és tu mesmo!”. Isto é uma lição fantástica, aquelas pessoas estarem a tomar conta de coisas da sua vida sem terem sequer o exemplo de nada, de como se podia funcionar alternativamente! Todas estas coisas se passavam nesse período. “Não temos onde deixar os filhos, faz-se uma cresce, pá! Quem fica a tomar conta? Alguém desempregado. E onde? Ocupa-se ali aquele edifício que está devoluto! E a malta vai lá limpar e põe aquilo a funcionar!”. Estas coisas aconteciam todos os dias no País todo! Isto não é radicalismo. Só no sentido que há a quem não agrade.


J.A. – Acha que pessoas como você e outras, que andaram envolvidas nessas lutas não têm de que se arrepender?
A.D. –
Eu não tenho. Tenho bons exemplos de sentido inverso e de muito oportunismo que eu não tive. O Mário Soares chegou a dizer-me à boca pequena “você ficava bem era nas fileiras do PS!”.


J.A. – O seu sucessor no Parlamento, Acácio Barreiros, aderiu ao PS…
A.D. –
O Acácio Barreiros foi aliciado pelo Mário Soares, da mesma forma que ele me tentou aliciar a mim! E o Acácio Barreiros foi.


J.A. – O que fazia ao salário que ganhava no Parlamento?
A.D. –
Nunca recebi nada. O salário ia todo para o partido. Tudo! Eu sei que o salário dos deputados na altura era 10 contos e 500 [52,50 euros], era uma mancheia de dinheiro. No 25 de abril eu ganhava bem e ganhava 1300 escudos por mês!


J.A. – Mas alguma coisa ganhava. Tinha que viver!
A.D. –
Recebia alguma coisa do partido, pouco! Eu para estar ali não podia trabalhar. Nem me lembro quanto me pagavam…


J.A. – Como é que chega ao Algarve?
A.D. –
Vim em 84, no dia 1 de agosto. Com a ideia de me ir embora, mas depois fui-me deixando ficar. Vim passar férias a casa de uns amigos ali próximo de Lagos. Depois convidavam-me para cantar aqui e acolá e fui ficando.


J.A. – Sempre foi um artista a 100% ou tinha outras atividades?
A.D. –
Sempre cantei, desde os 15 anos. Nunca deixei de cantar e dizer poesia. Mas sempre tive outras coisas para fazer.


J.A. – E ainda tem?
A.D. –
Não, já há uma data de anos que não tenho. Tenho uma reformazita pequena, que estas coisas de a gente fazer política e de ser artista popular paga-se caro!

João Prudêncio

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