REPORTAGEM

Barragens ainda abaixo dos 50% da capacidade

Barragem Odeleite i 2020 foto Goncalo Dourado
Barragem de Odeleite. Créditos fotográficos: Gonçalo Dourado

As fortes chuvas dos últimos dois meses no Algarve provocaram um aumento de 41,6 milhões de metros cúbicos de água nas seis principais albufeiras da região, mas ainda assim as três barragens que servem o consumo humano estão todas abaixo de 50% da sua capacidade útil, apurou o JA junto de fonte da Agência Portuguesa do Ambiente (APA) na região

Face à capacidade útil de 146,7 milhões de metros cúbicos de todas as barragens algarvias, a precipitação entre 1 de outubro e 4 de dezembro no Algarve representou um pouco mais de 28%, sublinham dados consultados pelo JA, ressalvando que os 41,6 milhões não representam a precipitação líquida mas sim a diferença entre a chuva que caiu e o que, no mesmo período, foi sendo consumido na região com origem nessas albufeiras.


O Barlavento tinha em 4 de dezembro (passada quarta-feira) cerca de 124,2 milhões de metros cúbicos, dos quais 90 eram úteis (quer dizer, podem ser utilizados para consumo, pois estão acima da cota a que se fazem as captações), enquanto o sotavento tinha 82,8 milhões, dos quais 56,5 úteis. No Barlavento a chuva dos últimos dois meses fez crescer 8% o volume das barragens, enquanto no sotavento fez crescer 61%.


Desde o início do ano hidrológico, a 1 de outubro, as chuvas fizeram aumentar os volumes das barragens do Barlavento (Odelouca, Arade, Funcho e Bravura) em 7,1 milhões de metros, enquanto as duas grandes barragens que servem o consumo humano e a agricultura no sotavento (as contíguas Odeleite e Beliche) cresceram 34,6 milhões.


Só na última semana (27 de novembro a 4 de dezembro), em que choveu fortemente a sotavento, o encaixe total nas barragens do Algarve foi de 15,4 milhões de metros cúbicos, com saldo fortemente positivo para o sistema Odeleite/Beliche, no concelho de Castro Marim, barragens que servem o sotavento e que, ao contrário das demais, têm uso duplo, isto é, rega e consumo humano.


Contudo, apesar da forte precipitação (na estação de São Brás de Alportel, em novembro, atingiu os 151,7 milímetros por metro quadrado), de acordo com o último boletim do Sistema Nacional de Informação dos Recursos Hídricos (SNIRH), nenhuma albufeira algarvia foi além dos 55% da sua capacidade e só o Funcho (54,7%), que não serve o consumo humano nesta altura do ano, excedeu o meio da tabela.

Odelouca teve saldo nulo entre chuvas e consumos

A maior parte das chuvas da últimas semanas acabaram no mar


Assim, em 30 de novembro, o Beliche estava a 38,3% da sua capacidade máxima (22,4% em setembro, antes do início do ano hidrológico), Odeleite a 45,7%, (29,2% em setembro) e Odelouca 48,9% (50%) em setembro. Esta última barragem teve um aumento líquido praticamente negativo, uma vez que o que recebeu do sistema natural hídrico foi “utilizado” nos consumos humanos que satisfez. Ao contrário das suas duas grandes congéneres a sotavento, Odelouca destina-se apenas a consumos humanos, não sendo acompanhada na função por nenhuma das suas “companheiras” situadas no barlavento, Arade, Funcho e Bravura.


Apenas em dois meses de chuvas, o ano hidrológico 2020/2021 trouxe, portanto, fortes acrescentos, sobretudo, às duas grandes barragens que servem o consumo humano no sotavento: Odeleite cresceu 64% (de 29,2% para 45,7%) face ao volume que tinha e Beliche cresceu 58,4% (de 22,4% para 38,3%). Odelouca praticamente manteve-se.


Segundo o Plano Regional de Eficiência Hídrica, concluído em setembro passado, o consumo humano representa apenas 34% dos consumos totais de água no Algarve (cerca de 80 milhões de metros cúbicos), cabendo mais de metade (56,8%) à agricultura (134,2 milhões de metros cúbicos), 6,4% aos golfes (15,15 milhões de metros) e 5,3% a outros consumos, como espaços verdes, consumo humano particular e atividades recreativas particulares. A indústria representa apenas 2,2% da água consumida na região (ver quadro).

O tipo de solo é o segredo da permeabilidade


Das fortes chuvadas que caíram nas últimas semanas, só uma pequena parte contribuiu para o aumento do volume das albufeiras. Uma boa parte infiltra-se nas terras e há-de engrossar os lençóis freáticos, enquanto a maior parte acaba no mar.


“A primeira água que cai vai empapar o solo e depois, da restante, há uma que cai logo em cima da albufeira propriamente dita, mas há outra que cai na bacia, nos terrenos à volta, e essa vai escorrendo para a albufeira e ainda pode ter algum significado”, explicou ao JA o presidente da Águas do Algarve, Joaquim Peres.


O mesmo responsável recorda que a água que cai no litoral não se pode reservar, mas a da serra sim, sobretudo num regime pluvial como o algarvio, caraterizado por poucos períodos anuais de chuvas, mas, quando chove, essa chuva ser torrencial.


“Se tivermos a felicidade de essas águas caírem em bacias de retenção, que permitam o seu depósito e depois a infiltração no subsolo, é uma situação bastante interessante. Mas temos que perceber que a velocidade com que essas águas caem por vezes não dá tempo para se infiltrarem no solo, porque a permeabilidade do solo pode não ser tão elevada”, sublinha.


Para ilustrar a permeabilidade do solo, Joaquim Peres compara os terrenos serranos a “uma poça, que a gente mete água lá dentro e depois vai vendo ela desaparecer lentamente, dependendo da permeabilidade do solo. Se tiver uma argila ela não desaparece. Se tiver areia, ela desaparece, porque tem uma grande permeabilidade. É evidente que essa água vai para o subsolo, mas é preciso que haja zonas de grande permeabilidade para garantir essa entrada no subsolo”.


Sublinha a propósito a importância das águas subterrâneas no sistema hídrico, pois elas constituem uma parte substancial das captações das águas do Algarve e neste verão chegaram, no seu conjunto, a constituir cerca de 30% das águas disponibilizadas pela empresa, que no seu conjunto somaram um volume de cerca de 73 milhões de metros cúbicos.

João Prudêncio

Rio Guadiana

As soluções para a seca

Captação no Guadiana é hipótese quase certa

A captação de água no Guadiana será quase seguramente adotada de entre as propostas que caraterizam as opções técnicas para o aumento das captações de água na região, que deverão ser conhecidas já em janeiro e fazem parte de um conjunto de investimentos da ordem dos 200 milhões de euros, disse ao JA o diretor da delegação do Algarve da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), Pedro Coelho

O estudo está a ser redigido por três técnicos em hidráulica: além de Pedro Serra e Rodrigo Oliveira, também Carmona Rodrigues – autor da proposta de captação de água no Guadiana, junto ao Pomarão – faz parte da “task force” que estuda as várias opções possíveis.


As obras a adotar, que terão que estar executadas até 2025, estão previstas no Plano de Recuperação e Resiliência que o Governo encomendou ao economista António Costa e Silva e fazem parte da chamada “bazuca”, um conjunto de ajudas comunitárias para investimentos decididos no quadro de recuperação económica em função da atual crise económica e social espoletada pela pandemia.


Além daquela solução, considerada a mais eficaz, barata e rápida, estão em cima da mesa hipóteses como o aproveitamento das águas resultantes do processo de depuração das Estações de Tratamento das Águas Residuais (ETAR), a construção de centrais de dessalinização das águas do mar e a construção da barragem da Foupana, muito próximo das existentes barragens de Odeleite e Beliche, no concelho de Castro Marim. Entre várias outras soluções menores, mas que no conjunto acabarão por ter impacto em várias zonas do Algarve, de barlavento a sotavento.


“Provavelmente vão surgir duas soluções que terão que ser concretizadas em projeto e depois em obra. Está a ser feita uma avaliação macro e vão ser definidas as medidas para adicionar fontes de captação às que atualmente existem”, sublinhou Pedro Coelho, ressalvando que ainda não há soluções definitivas.

Todos com Pomarão

Joaquim Peres, o presidente da Águas do Algarve


Não escondendo a sua simpatia pelo projeto do Guadiana, o diretor da APA no Algarve garantiu que a solução do Pomarão, junto ao Chanza, afluente do lado espanhol do Guadiana onde os espanhóis já captam água há 20 anos, ganhará em muitas variáveis, pois “consegue trazer mais água ao sistema, vai-se captar a uma bacia internacional, tem impactos ambientais menores do que numa barragem, além da rapidez e facilidade de execução”.


“Não vamos regularizar o rio, alargar as suas margens, etc. Existem indícios de que o Pomarão é uma solução exequível e uma das mais exequíveis no conjunto dos multicritérios da avaliação”, garantiu, sempre ressalvando que não há ainda luz verde para essa solução e que ela carece de negociação com Espanha. Essa negociação já foi iniciada, na cimeira ibérica que teve lugar na Guarda em 8 de outubro passado, embora sempre condicionada à futura adoção da solução.


Sem descartar a hipótese do Guadiana – que confessa ver com agrado – o presidente da Águas do Algarve, Joaquim Peres, enfatiza as vantagens de soluções como o reaproveitamento das águas das ETAR e a dessalinização: “A água saída das ETAR pode ser utilizada com outros fins: rega de jardins, lavagem de ruas, etc. Tem um universo de aplicações extraordinariamente grandes, mas é preciso que haja vontade e julgo que isso está a acontecer: temos contactos com algumas instituições que estão desejando que essa água lhes possa chegar. É uma água que não pode ser misturada com a outra, tem que ter canalização própria. Mas a reutilização tem que ser vista também em função do bem que ela pode produzir, porque ela poderá ser mais cara mas a diferença será entre ter água ou não ter”.


O responsável máximo da Águas do Algarve observou que é possível aumentar os níveis de pureza dessa água de forma a utilizá-la para fins mais nobres, mas isso implicaria custos acrescidos. “E enquanto temos uma água com qualidade e mais barata não se vai deitar mão de uma situação desse tipo. As pessoas não estão ainda disponíveis para pagar esse valor pela água”, disse, garantindo que as águas que acabam no mar, mesmo não se encontrando no fim da linha da depuração, são de qualidade adequada a esse fim “e a prova são as inúmeras bandeiras azuis que vamos tendo todos os anos”.


Nesse âmbito, está atualmente em curso uma obra que visa ligar a ETAR de Vila Real de Santo António a dois campos de golfe no concelho de Castro Marim, numa distância de cerca de 12 quilómetros. “Já temos grande parte da extensão das tubagens instaladas, falta fazer uma estação elevatória, que foi submetida a uma candidatura do POSEUR [Programa Operacional Sustentabilidade e Eficiência no Uso de Recursos]”. Dois campos que serão pioneiramente regados pela água depurada de uma ETAR.

Foupana leva 10 anos “mas precisamos de água é agora”

Pedro Coelho, diretor da APA


Sobre as razões da sua simpatia pela solução do Guadiana, Joaquim Peres observa que a água do Pomarão “é doce, com salinidade baixa. Por outro lado, era possível ser transportada e depois misturada com a água da barragem de Odeleite. A salinidade dissolvia-se por completo. E tinha a vantagem de só se ir buscar quando houvesse necessidade”.


Recorde-se que a hipótese da captação junto à aldeia alentejana do Pomarão, no concelho de Mértola (mais a norte porque ali, precisamente, a salinidade é mais baixa) implica o envio da água captada por bombagem até à barragem de Odeleite através de um tubo com 1,20 metros e 35 quilómetros de extensão. Implica também uma estação elevatória que será fechada sempre que a barragem não comporte aqueles caudais ou eles não se revelem necessários.


A hipótese da barragem da Foupana e os açudes galgáveis são outras hipóteses. “Têm muito mais impacto ambiental. Mas por outro lado na Europa há fundos disponíveis para fazer barragens. A vantagem do Guadiana sobre a Foupana é que poderia alimentar as barragens já existentes. Ambas as soluções são complementares, mas temos que as hierarquizar. E isso prende-se com o tempo da execução, os impactos e os custos. Muitas vezes estamos lutando contra o tempo. A barragem pode levar até 10 anos a fazer mas nós estamos com falta de água é agora”, enuncia Joaquim Peres, reforçando que o Pomarão é uma solução “muito mais rápida”.


E tempo é precisamente o que o Algarve não tem: as obras que forem decididas neste contexto terão que estar prontas até 2025, por exigência comunitária.


Além daquelas adições a efetuar ao lado das alternativas de abastecimento, o Plano de Eficiência Hídrica estipula 33 milhões de metros cúbicos de potencial de poupança de água.

Utilização da água captada na região no ano 2019


“O Plano de Eficiência Hídrica não tinha como objetivos caraterizar, tinha como objetivo fazer medidas. Na eficiência urbana, agricultura, turismo, são 53 medidas, do lado da eficiência, que tem como objetivo poupar 203 milhões de metros cúbicos ao ano”, enfatiza por seu turno Pedro Coelho, da APA, relevando que não basta ter novas fontes de captação, é preciso reduzir perdas e aumentar a eficiência das captações existentes.


Afinal, esses 33 milhões de metros que se pretende poupar – e que se vão em perdas e pura ineficiência do sistema – representam, só por si, quase metade dos 73 milhões do consumo humano algarvio.

João Prudêncio

PUB
Tamanho da Fonte
Contraste