REPORTAGEM

Amaro Antunes: “Esta foi uma Volta a Portugal muito dura a nível mental”

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– diz em entrevista ao JA Amaro Antunes, o vila-realense, que venceu a Volta a Portugal. Na conversa com o atleta percorremos alguns momentos da história do ciclismo vila-realense, onde participou o seu avô, Eleutério Antunes

A conquista de Amaro Antunes, como vencedor da Volta a Portugal, trouxe-nos à memória uma árvore enorme de recordações, das quais só podemos agarrar num ou noutro ramo, para que possamos falar sobre o que interessa, isto é, sobre este acontecimento grandioso, não apenas para a W52 FC do Porto, mas sobretudo e sem equívocos, para o vila-realense Amaro Antunes, que certamente, um dia caberá, por imperativos de mérito e reconhecimento, na galeria dos mais notáveis da cidade pombalina, visão, que pertence unicamente ao município pombalino. Esperemos que o tempo nos traga a confirmação.


Pois destes ramos que soltamos, libertamos à memória, para que melhor possamos fazer a ponte com o Amaro Antunes, os tempos em que Vila Real de Santo António vivia um entusiasmo fantástico pelo ciclismo, onde o saudoso António Pescada, que tinha uma Casa da Bicicletas em frente às Janelas Verdes, na Rua Jacinto José de Andrade, ainda andou pela Volta ao Algarve.


Porém, num salto não muito grande pela história, e mais ou menos na época em que corria o Sérgio Páscoa, natural de Vila Nova de Cacela, um corredor notável, que chegou a representar Portugal, correndo inclusive no Sporting, onde acabou como treinador, para desta forma alongarmos a estrada que nos levará a Eleutério Antunes, avô do Amaro Antunes, que corresse onde corresse dava bigodes a toda a gente.


Ele vencia a maioria das corridas populares, fosse em Vila Nova de Cacela, em Monte Gordo, por altura da procissão em honra de Nossa Senhora das Dores, numa corrida Monte Gordo/Monte Gordo, com várias passagens por Vila Real de Santo António, ou então nas corridas que se faziam, numa «pista» improvisada em Castro Marim, durante a procissão de Nossa Senhora dos Mártires.


Corridas de grande empenhamento, onde começavam trinta corredores e para a última volta, às vezes só aparecia o vencedor.


A prova Monte Gordo/Monte Gordo era a mais entusiasmante, e ainda que o Eleutério Antunes limpasse tudo, também apareciam outros corredores que davam luta, casos do Lito (um velho Pic Nic) que era fotógrafo e o Libório, que trabalhava na Litografia Parody.


Os corredores partiam de Monte Gordo, mais ou menos em frente ao Casino, desciam pela estrada da mata, virava para a Vila, junto ao Farol, e próximo da escola das meninas (actual escola de Hotelaria. Será que ainda é?), curvavam à esquerda em direcção ao Encalhe, Hortas, Chave de Ouro, Monte Gordo e assim sucessivamente.


Numa dessas voltas, com a velocidade estonteante, o Lito, que queria ser o primeiro a passar em Vila Real, não conseguiu travar e entrou pela escola das meninas. Nesse dia/noite, à segunda volta o bom do Libório foi para casa. Claro que no outro dia, no Café Dolin, que anos depois passou a ser o PIC NIC, a malta deu-lhe cabo da cabeça. Mais uma vez, Eleutério Antunes chamava a si a vitória.


Em Castro Marim, apesar da concorrência, o Eleutério Antunes voltava a não deixar o crédito por mãos alheias, todavia, aqui as restrições no que se refere à velocidade era muito maiores, pois «pista» era improvisada, em pleno recinto onde decorria o fim-de-semana das festas, completamente plano, incluindo as curvas, e em muitas ocasiões assistia-se a que alguns corredores acabavam por entrar nas barracas de tiros, de setas, vendedores de torrão, loiças ou farturas. E a corrida nem sequer era interrompida.


Foi neste ambiente que conheci e assisti às corridas do avô Eleutério, o mesmo já não acontecendo em relação ao pai do Amaro, que bem conheci, ainda que não o veja há imensos anos, mas que a loucura da agulha da bussola não nos voltou a juntar, nem nos muitos anos, dos quais me orgulho, em que também coloquei Vila Real de Santo António no mapa da Volta a Portugal, quando fui o speaker de todas as provas de ciclismo organizadas em Portugal pelo JN (Jornal de Notícias), inclusive a Volta a Portugal.

Com a brilhante vitória de Amaro Antunes, que o levou o ponto mais alto do pódio da Volta a Portugal, se reabriu uma greta para voltar ao ciclismo, desta vez como jornalista, o que também fui ao longo de muitos anos, para levar ao encontro dos leitores do JA, alguns salpicos da história de Amaro Antunes, como vencedor da Volta a Portugal, que motivou mil alegrias, o que nem sempre acontece, do norte (venceu a W52 FC Porto) ao sul de Portugal (conquista de Amaro Antunes, um homem do Algarve/Vila Real de Santo António.


Nem sempre as grandes entrevistas, com perguntas e respostas longas, que acabam por cair na incompreensão, são uma vantagem para o leitor, e porque sentimos, que o nosso entrevistado, Amaro Antunes, após ter carregado durante muitos quilómetros com a camisola amarelo e ter sido coroado em Lisboa, ali no Terreiro do Paço – onde se iniciaram também as grandes mudanças rumo à democracia, – estava mais formatado para descansar, que para falar, fomos para um tu cá, tu lá, mais pragmático.


Daí, decalcarmos um ciclo de perguntas, assim a modos de «tu cá, tu lá», para ele responder, com a subtileza com que subiu o Monte Farinho [também se diz Monte Farinha], o chamado Alto da Senhora da Graça.


Acompanhamos a Volta, não à beira da estrada, mas à beira do pequeno ecrã, entre o silêncio e as vozes, sobretudo de João Mendonça e Marco Chagas, velhas sentinelas, com quem fizemos algumas voltas, aliás, conhecemos o Marco, ainda como corredor e mais tarde como Director Desportivo, e conhecemos o João no mesmo lado da barricada, no tu lá, tu cá, possível, pois enganam-se, aqueles que pensam, que apesar de andarmos todos na volta, e aquilo ser uma Aldeia volante, naquele tempo andávamos todos na estrada, e quase que não nos víamos, assim a modos de grandes tertúlias.


Ora por tudo o que já foi escrito, o que se segue será uma entrevista pragmática, que aliás, já tínhamos confessado ao Amaro Antunes, que iria ser assim, para que tudo fosse lido nas linhas, e não nas entrelinhas.


E como eu era o primeiro a começar. Aqui vai:


Amaro Antunes, vamos começar pela parte mais difícil, que reacção para a homenagem de que foste alvo por parte do senhor Presidente da República, pelo facto de teres conquistado a Volta a Portugal?

Foi para mim um orgulho imenso e uma oportunidade única na vida e foi um dia que jamais esquecerei.

Fazes parte de uma família de sempre foram uns apaixonados pelo ciclismo, ainda vi o teu avô Eleutério Antunes a correr, pensas que ele e o teu pai foram decisivos para a tua carreira?

Obviamente que o facto de ter uma família ligado ao ciclismo, sobretudo o meu pai, ele foi sem dúvida o grande impulsionador do meu começo no ciclismo.

Fala-me um pouco de ti. Quem és?

Sou uma pessoa dedicada, profissional e super focada em tudo aquilo a que me proponho.


Quando é que começaste a correr?

Em 2005, como cadete no clube de ciclismo de Loulé.


Como te avalias como ser humano?

Considero-me divertido, positivo, lutador e adoro um bom desafio.


O que representa para ti a família?

São os meus pilares para os meus desafios.


Estava nos teus objectivos vencer a volta?

Obviamente sendo eu português e a Volta a Portugal sendo a prova rainha a nível nacional, sempre foi um objectivo poder conquistá-la.


A pandemia também tem sido prejudicial para o ciclismo?

Penso que este ano foi muito mais duro a nível mental do que fisicamente derivado a toda esta incerteza e ao maldito vírus. Por isso, sim, o ciclismo também foi bastante afectado com esta pandemia com sucessivos adiamentos e cancelamentos das provas do calendário.

O que é que falta para a volta a Portugal regressar ao nível internacional do começo do ano de 2000, onde passavam por aqui alguns dos melhores corredores estrangeiros, numa competição como quase vinte dias?

Penso que talvez o que falte seja aumentar o orçamento desta competição para seja apelativa às equipas internacionais.

Qual o peso actual do ciclismo algarvio e se pensas, que seria possível só com corredores algarvios, termos uma equipa que pudesse vencer a volta?

Cada vez mais demos provas de que os algarvios têm um enorme potencial no ciclismo, pelo que seria possível existir uma estrutura algarvia capaz de vencer a Volta Portugal, como já aconteceu no passado.


Que mensagem para os jovens ciclistas, sobretudo para dentro do Clube de Ciclismo Amaro Antunes?

Trabalho, dedicação e acreditar naquilo que realmente querem.


Aproveito a boleia para te perguntar. Como é que o clube vive? Com que apoios?

Grande parte dos apoios são locais, aos quais eu agradeço imenso todo o contributo para este projeto que está a crescer. Obrigado a “Restaurante O Infante”,”MacDonaldsVRSA, “Frusoal”, “Elevis Elevadores”, “Algarlixo”, “Consvicar”, “Carnes de Ouro”, “Intermarché VRSA”, “Restaurante Os Arcos”, “Caetano Costa e Costa Lda”, “Avenida Bar Monte Gordo” e “Sociedade Recreativa Cacelense”.


Como avalias a corrida que o João Almeida, tem vindo a fazer no Giro de Itália?

Tem feito uma corrida excepcional e vamos todos torcer para que consiga chegar ao final com a camisola rosa e orgulhar ainda mais o povo português.


Pensas regressar a uma equipa estrangeira ou vai continuar na W52 – FCP Porto?

Para já o meu principal foco é a minha conquista na Volta a Portugal. Obviamente quando passar toda esta euforia, irá falar primeiramente com a minha equipa e depois decidirei o futuro.


Que ambições para o futuro?

Certamente depois desta vitória sou um ciclista com ainda mais responsabilidade. Estas conquistas dão-me ainda mais motivação e vontade para trabalhar e conquistar mais vitórias.


Finalmente, como é que Vila Real de Santo António te recebeu, e o que guardas das palavras da Dr.ª São Cabrita, Presidente da Câmara?

É um concelho que sempre reconheceu o meu esforço e dedicação. Senti muito apoio por parte de todos os vila-realenses e é para mim um orgulho ter nascido, crescido e viver aqui. Devido à pandemia foi algo bastante restrito e não pode ser aberto ao público, mas senti-me de igual modo reconfortado.


E para fecharmos este tu cá, tu lá, com Amaro Antunes, pedimos licença à Lusa, para citarmos, este clarão de uma conversa, que tiveram com o vencedor da Volta a Portugal:

«Finalmente posso respirar de alívio. Foram dias de muita tensão, mas senti-me sempre confiante devido ao grupo que tinha em meu redor. Os meus colegas deram tudo por mim. À partida para o contrarrelógio só pensava em retribuir todo esse trabalho. Tenho vindo a fazer um percurso muito bonito, tem-me faltado um pouco de sorte. Mas quando fazemos as coisas bem e praticamos o bem, a recompensa acaba por chegar. Sinto-me realizado. Acima de tudo quero dedicar a vitória à minha mãe e a todo o grupo de trabalho.»

Neto Gomes

O vencedor da Volta ofereceu a Camisola Amarela ao prof. Marcelo Rebelo de Sousa

“Amaro Antunes, venceu a volta a Portugal, lutando contra a pandemia, contra o medo e contra a crise. E venceu por todos nós”

– Afirmou o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa

Marcelo Rebelo de Sousa, durante a recepção feita a Amaro Antunes, vencedor da Volta a Portugal, que contou ainda com as presenças de Delmino Pereira, Presidente da Federação Portuguesa de Ciclismo e Adriano Quintanilha, da W52, o principal investidor da equipa W52/FC Porto, afirmou:

Quando Delmino Pereira, Presidente da Federação Portuguesa de Ciclismo, apareceu há uns meses no meio da pandemia, em Belém, a dizer: – Presidente eu vou fazer a Volta a Portugal em bicicleta – Eu fiquei a olhar para ele e disse: – Mas vai fazer como… Depois a confissão de Marcelo Rebelo de Sousa, que muito justamente, Delmino Pereira, tinha pedido o encontro, para o Presidente da República, interceder junto das autarquias, para que a prova se realizasse.


Falando, sobre Amaro Antunes, a importância que a sua vitória teve na actual conjuntura, disse o Presidente da República:
“No meio da pandemia o país estava vivo, com a realização da volta a Portugal… E quando o próprio Amaro Antunes, que coincidência, antes da volta começar, diz à imprensa: – Eu vim para ganhar…


Foi mesmo assim e veio para ganhar e isto é uma lição para todos nós. Nós portugueses, porque não é para marcar presença, ganhar uma etapa, é para ganhar, sempre em cima de escassos segundos.


O Amaro Antunes que relativamente cedo ficou na posição de primeiro – como é que ele vai ele vai aguentar a diferença mínima até à última etapa. Bastava um deslize, e a competição existia no seio da mesma equipa.


E aqui existem várias lições a tirar: Primeiro ter-se feito a Volta a Portugal é um sinal de que Portugal no meio da pandemia estava vivo, queria viver, queria olhar para o futuro. Que Portugal queria começar a construir esse mesmo futuro e queria fazê-lo num desporto popular, muito popular, como é o ciclismo Segundo, o futuro vencedor da Volta a Portugal (Amaro Antunes) à partida tinha afirmado que estava li para ganhar e fez tudo para ganhar.


A lição que nós devemos fazer portugueses és que devemos fazer tudo para sermos os melhores. Podemos não conseguir, mas temos de apostar, como fez o Amaro Antunes, apontando para a meta da conquista.

Mas para se vencer, também temos de ser mais consistentes, e ele foi. Consistente não é ser bom numa etapa e mau noutra, antes temos de ser, e o Amaro Antunes foi, mais consistente, mais equilibrado, mais completo. O vencedor.


Amaro Antunes deve recorda esta vitória, como uma conquista única e contra a pandemia, contra o medo e contra a crise. Ao vencer a volta ele estava em nome de todos nós, a vencer esses desafios e por isso vale apena tê-lo aqui para o felicitar, porque esta vitória, por todos os condicionalismos e dificuldades, vai ser a mais saborosa da sua vida. Pode, sabe-se lá, um dia vencer o Tour, o Giro ou a Vuelta, nada apaga a força desta conquista.”


N.G.

Com um ramos de flores, que lhe foi entregue pela Dr.ª Conceição Cabrita, presidente da Câmara Municipal de Vila Real de Santo António, como símbolo do reconhecimento

Conceição Cabrita, presidente da Câmara Municipal de Vila Real de Santo António

“Em nome dos vila-realenses e do Município, agradecemos tudo o que fez por todos nós, com esta grande vitória na Volta a Portugal”

Pena que a pandemia, que tantas vezes é tão gentil, e ainda bem, para tanta gente, quando junta centenas e centenas em tantos lugares, não tenha permitido que os vila-realenses se tivessem deslocado ao Centro Cultural António, onde o Câmara Municipal, pela voz de São Cabrita, a presidente, homenageou o vencedor da Volta a Portugal.


Apesar dos confinamentos, que a pandemia provoca, o Município de Vila Real de Santo António, e tendo como imperativos as exigências que o Covid 19 provoca, recebeu no mais nobre espaço cultural da Cidade, Amaro Antunes, filho da terra e o grande vencedor da Volta a Portugal, em representação da W52/FC Porto.


Mais que as flores e os toques de cotovelo ou em punho fechado, em substituição dos abraços, das “mansadas”/cumprimentos, fica a alegria, a emoção e a honra, também sentida por Amaro Antunes, transmitida pelo executivo autárquico e naturalmente pelas pessoas que ali se deslocaram e que o receberam com enorme entusiasmo.


Olhos nos olhos com Amaro Antunes, Conceição Cabrita, afirmou:
«Vitória merecida, que deixa todos os vila-realenses e a autarquia orgulhosos, por isso, apesar das dificuldades impostas pela pandemia, o recebemos aqui no Centro Cultural António Aleixo, com todo o entusiasmo e reconhecimento.


Amaro Antunes, além de ser um grande atleta, um jovem muito trabalhador, muito profissional, que tem sonhado, começou a gora a recolher os frutos deste sonho.


Portanto, é com muita emoção que o recebemos, e continuamos a acreditar no seu futuro, agradecendo por isso, o que ele fez por todos nós, com esta vitória. Por outro lado, fora da competição tem sido um exemplo, e já fez uma escolinha de ciclismo preparando jovens, que acolhem também os valores do desporto.»


E entre tantas felicitações, registamos as da sua filha, Maria Antunes, palmo e meio de gente: – Pai és o maior, és um campeão…


N.G.

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