Luís Coelho: “Algarve corre sérios riscos por depender tanto do turismo”

O turismo tem sido o motor económico da região, mas a “hiperconcentração da atividade económica num único setor é um risco cada vez maior para o Algarve”. O alerta é de Luís Coelho, presidente da delegação regional da Ordem dos Economistas, lamentando que “os restantes setores de atividade sejam hoje já quase inexistentes”. Luís Coelho aponta, por isso, como solução, uma estratégia a longo prazo, que passe por uma estrutura económica diferente, onde “o turismo será apenas uma componente do que se faz na região e não o que a define”

 

> NUNO COUTO

 

Jornal do Algarve – Como classificaria a situação atual da economia algarvia, que parece cada vez mais dependente do turismo?
Luís Coelho – Tenho sentimentos mistos relativamente à economia do Algarve. Se olharmos para os dados disponíveis, rapidamente percebemos o salto notável que a região deu no que toca ao seu desenvolvimento económico nos últimos 50/60 anos. De facto, antes da abertura ao público do aeroporto de Faro, a 11 de julho de 1965, esta era uma região ultraperiférica da Europa (e de Portugal), marcada por uma economia anémica, assente numa agricultura e pesca de sobrevivência, a que se associavam alguns fogachos industriais concentrados em zonas bem definidas e um tímido comércio de proximidade. O turismo permitiu mudar radicalmente esta realidade. Os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) revelam que, atualmente, o Algarve é a segunda região do país com maior Produto Interno Bruto (PIB) por habitante, ficando apenas atrás de Lisboa.

J.A. – Então, porquê esse “sentimento misto” relativamente à economia do Algarve?
L.C. – É verdade que, face a estes indicadores, é difícil argumentar que a economia algarvia não tem tido uma performance razoável quando comparada com a realidade do resto do país. No entanto, temos de reconhecer que enfrentamos desequilíbrios preocupantes. Os últimos dados disponíveis no INE (reportados ao ano de 2015) revelam que 40% do Valor Acrescentado Bruto (VAB) produzido na região está concentrado nos setores do comércio, transporte e turismo. O imobiliário surge logo a seguir, com 17% do total do VAB. Ora, como sabemos, todos estes setores dependem criticamente do turismo.

J.A. – E será isso necessariamente mau?
L.C. – Valerá a pena notar que, segundo dados do INE, a região registou 19 milhões de dormidas em 2017 (a que correspondem 4,1 milhões de hóspedes), tendo sido faturados nesse ano uns impressionantes 1,028 milhões de euros. Logo, o problema não está, claro, nestes números absolutamente fantásticos para a região. A questão é que, tomados de forma individual, os restantes setores de atividade são quase inexistentes no Algarve. De facto, em 2015, o somatório do VAB proveniente dos setores primário e secundário não chega a 15% do total, algo que revela bem a concentração da economia do Algarve num único setor de atividade.

J.A. – O que temos a temer com essa dependência económica num único setor?
L.C. – Apesar do mérito indiscutível que o fenómeno turístico teve no redesenho da nossa realidade sócioeconómica, com resultados bem palpáveis na melhoria do nível de vida da população, temo que se esteja a viver uma situação de hiperconcentração da atividade económica em torno desse mesmo fenómeno. Tal é indesejável, pois expõe a região a uma fortíssima sazonalidade, a qual limita a capacidade das entidades económicas (públicas e privadas) para desenvolver um adequado planeamento de desenvolvimento de longo prazo. Ao mesmo tempo, tal concentração aumenta consideravelmente o custo de manutenção das infraestruturas para os que cá vivem e distorce de forma muito significativa o mercado de trabalho regional. Por outro lado, esta concentração gera uma volatilidade muito acentuada no nosso ciclo económico regional. De facto, não é à toa que o Algarve foi a região do país que mais sofreu em termos de produto e desemprego com a crise de 2007-2012 e que mais rapidamente recuperou no período 2012-2016. Resulta desta análise que, apesar de não estarmos numa situação dramática, importa refletir de forma séria sobre se é este o modelo de desenvolvimento que queremos para o nosso Algarve.

J.A. – Isso porque o turismo está muito dependente de fatores internos e externos…?
L.C. – Numa palavra: sim. A história recente mostra que o sucesso do Algarve depende, em grande medida, da performance dos seus concorrentes diretos. De facto, perspetiva-se que 2018 fique aquém de 2017 em termos de procura turística. Apesar de não ter visto ainda nenhum estudo formal sobre o tema, o que vai saindo na comunicação social sugere que a principal explicação para esta performance menos conseguida se prende com questões cambiais (efeito Brexit), problemas com algumas companhias áreas e, sobretudo, com a reabertura de grandes mercados concorrentes como sejam a Turquia, o Egito ou a Tunísia. Logo, uma análise fria da situação sugere-me que temos de continuar a trabalhar todos os dias para melhorar e qualificar a nossa oferta turística.

J.A. – E como é que pode ser atingido esse objetivo?
L.C. – Esse objetivo pode ser atingido de várias formas, sendo que parece-me essencial apostar em pelo menos três vetores. Primeiro, perceber muito bem o que de melhor temos para oferecer a quem nos procura, de forma a que nos possamos diferenciar da competição. Fatores como a segurança do destino, a nossa gastronomia única ou a natural simpatia dos portugueses vêm-me imediatamente à mente por não poderem ser facilmente imitáveis por terceiros. O segundo é a estruturação do produto dentro da região. Quero com isto dizer que temos de pensar que o Algarve oferece uma experiência como um todo a quem o visita, pelo que o todo tem de funcionar em harmonia. Questões como os transportes, limpeza urbana, animação e qualidade de serviço têm, pois, de estar perfeitamente sintonizadas no Algarve, sendo por isso necessário pensar no conjunto. Finalmente a promoção. É essencial comunicar as nossas características únicas a quem nos pode querer procurar. Para tal é preciso dinheiro. Muito dinheiro, muito mais do que aparentemente temos disponível neste momento para esse fim.

J.A. – E as empresas da região estão, ou não, preparadas para os novos desafios e como podem conseguir ainda melhores resultados?
L.C. – Não consigo responder diretamente a esta questão, pois cada empresa é um caso particular. Posso, sim, comentar brevemente os resultados de um estudo que apresentei em 2015 sobre o tecido empresarial do Algarve. Este debruçava-se sobre as empresas constituídas como sociedades anónimas ou por quotas com sede fiscal no Algarve e chegava a duas grandes conclusões: a primeira é de que 84,1% do universo empresarial observado cai na definição de microempresa emanada pela União Europeia. Logo, o grosso do nosso “músculo” empresarial tem menos de 10 trabalhadores e menos de dois milhões de euros de volume de negócios ou menos de dois milhões de euros de total de balanço; a segunda é de que, à data do estudo, quase 30% das empresas do Algarve definidas nos termos acima indicados estavam tecnicamente falidas e 45% apresentavam prejuízos. Estes dados, relativos ao já longínquo ano de 2013, sugerem que o nosso tecido empresarial é genericamente muito frágil. Resulta daqui que a nossa capacidade competitiva – interna e sobretudo externa – é, na melhor das hipóteses, limitada. Se juntarmos o facto destas empresas estarem na maior parte das vezes despedidas de competências de gestão e de quadros diferenciados e qualificados, torna-se difícil assumir que estamos preparados para os novos desafios que se avizinham. Há naturalmente exceções, pois também temos no Algarve empresas com uma certa escala, estruturas financeiras sólidas, operações economicamente equilibradas e gestão profissional, assentes em conhecimento e que podem confiar nos seus quadros competentes e experientes. São estas empresas que, eventualmente, conseguirão afirmar-se interna e externamente, gerando valor para a economia regional e nacional.

J.A. – Qual é a sua opinião sobre as queixas dos sindicatos em relação aos baixos salários praticados no setor do turismo na região? É verdade que aumentar os salários poderia afetar a competitividade do Algarve neste momento, como dizem os patrões?
L.C. – A resposta a esta questão é bem mais complexa do que um sim ou não. Penso que o que importa frisar é a natureza bastante peculiar do nosso mercado de trabalho. Os dados do INE revelam algo que é bem conhecido na nossa região: uma parte importante da nossa força de trabalho vive na precariedade, situação claramente visível quando nos comparamos com o resto do país. Este facto não se pode dissociar do perfil de especialização da economia algarvia, assente num turismo com uma forte componente sazonal. Mas as particularidades do nosso mercado de trabalho não se ficam por aqui. Segundo o anuário estatístico de 2016, 32,2% dos empregos disponíveis na região requerem algum tipo de qualificação, enquanto 15,2% podem ser desempenhados por qualquer pessoa. Quando olhamos para o panorama nacional, nota-se que cerca de 36,7% do emprego é qualificado e apenas 10,2% diz respeito a tarefas não qualificadas. Esta diferença tem uma consequência importante ao nível dos rendimentos: nesse ano, o ganho médio mensal de um trabalhador por conta de outrem em Portugal continental ascendeu a 1096,6 euros. Em comparação, no Algarve, o valor equivalente ficou-se pelos 926,1 euros, o que resulta numa diferença pela negativa de 170 euros por mês. A conclusão que retiro é que a região tem muita capacidade para oferecer trabalho sazonal, concentrado em atividades conexas com o turismo. Ao mesmo tempo gera-se uma estrutura remuneratória muito própria, com o trabalho indiferenciado a ser particularmente valorizado face ao que acontece no resto do país. O inverso parece marcar o trabalho mais qualificado. Como economista, fico bastante preocupado com este padrão, que está ao arrepio do que seria desejável. Indo finalmente à sua questão, penso que apesar de se poder afirmar – com propriedade – que os salários no setor do turismo são baixos (nominalmente tal parece ser indiscutível, um pouco à imagem do que acontece com todos os outros setores de atividade), a verdade é que a região tem questões muito mais profundas para debater em matéria de mercado de trabalho.

J.A. – Então, o que é preciso fazer na estrutura da nossa economia para termos um futuro mais risonho no Algarve?
L.C. – Penso que devemos dividir o tema em torno de dois horizontes temporais diferentes. Assim, no curto prazo, admito que seja necessário pensar em três dimensões complementares. A primeira é, curiosamente, o reforço do posicionamento do Algarve como destino turístico de excelência e diversificado. Aqui, as palavras-chave são excelência e diversificação. No que toca à excelência, sou dos que acham que temos clara e assumidamente de posicionar o Algarve num segmento médio-alto, de forma a conseguir uma diferenciação significativa face aos nossos concorrentes diretos no nosso principal produto, que é o sol e mar. Como já referi anteriormente, a nosso favor temos a segurança, a qualidade do atendimento e a maravilhosa linha de costa que abençoou o Algarve. Esta aposta na excelência requer investimento (na esfera pública e na requalificação da oferta privada) para que se consiga aumentar os preços praticados de forma sustentada e sustentável. Implica, também, coordenação entre os diferentes atores do turismo para garantir que a experiência do turista é pensada de forma integrada. Esta estratégia tem, claro, um custo que passa pela potencial redução do número de turistas que nos visitam, algo que veria com bons olhos. Em particular, estaríamos a competir em margem em detrimento da rotação, o que, no longo prazo, parece-me melhor por qualificar o destino e reduzir custos de operação para a sociedade (nomeadamente de natureza ambiental e de ordenamento do território) que, à data, já me parecem excessivos. Por outro lado, como referido acima, para além da excelência, temos de pensar no tema da diversificação. Este reporta-se à necessidade de combater a forte sazonalidade da nossa procura turística. Ao mesmo tempo, diversificar significa, também, democratizar os efeitos do turismo, já que existem vários produtos que podem e devem ser desenvolvidos fora dos concelhos do litoral. Falo aqui de tudo o que for turismo de natureza, turismo de aventura e outros que os especialistas da área conhecem bem melhor do que eu. Já agora, neste domínio, reconhecer a posição dos recém-empossados órgãos diretivos da Região de Turismo do Algarve nestas matérias. Estou genericamente em sintonia com as ideias que por eles foram ventiladas nos últimos tempos e faço votos que consigam materializar o seu projeto.

J.A. – E quais são as outras dimensões em que devemos apostar, para além do turismo?
L.C. – A segunda dimensão prende-se com o efeito arrastamento que o turismo pode ter. Em 2015, a delegação regional da Ordem dos Economistas apresentou um documento que apontava exatamente nesse sentido. A ideia é simples: é possível fazer mexer mais a economia regional se o turismo incorporar os recursos que por cá são produzidos. O exemplo mais simples é o da produção agrícola, a qual pode ser facilmente incorporada na rica gastronomia local. Tal poderá classificar ainda mais a excelência da nossa restauração, baseada em produtos frescos e de proximidade. Ao mesmo tempo, escoamos o produto agrícola algarvio a um preço que, eventualmente, pode ser um pouco mais elevado. Este princípio é extensível a quase tudo o que produzimos na região e que seja passível de ser incorporado no complexo pacote de consumo dos turistas que nos visitam. Já a terceira dimensão que pode ser trabalhada é mais subtil e prende-se com a forma de governo da região. Uma das principais características do Algarve é que dificilmente nos unimos em torno de ideias comuns. Juntemos a quase ausência de centros de decisão na região para obter uma das marcas da nossa existência coletiva: a incapacidade crónica de reivindicação do Algarve junto do poder central. Na espuma dos dias estão exemplos práticos desta situação, como sejam a falta de decisão sobre o novo hospital central, o gravíssimo problema dos transportes (rede ferroviária, condições de circulação na EN125 e portagens na A22) ou a nova legislação sobre o alojamento local. Alterar esta questão é fundamental, pois dá contexto a tudo o resto que possamos vir a fazer no futuro. Infelizmente, o caminho parece-me tortuoso e bastante complexo de percorrer.

J.A. – Que estratégia a longo-prazo deve adotar o Algarve para fazer crescer a economia e não correr tantos riscos?
L.C. – No longo prazo a batalha é diferente. Em particular, penso que a 20/25 anos temos de ter um Algarve assente numa estrutura económica diferente. Nesta, o turismo será apenas uma componente do que se faz na região e não o que a define. Pensando em voz alta, ficaria satisfeito se o Algarve conseguisse tornar-se na meca da produção de energia limpa da Europa, criando para isso toda uma fileira industrial à volta desta ideia. Se a par deste desiderato fossemos capazes de criar um setor primário que suprisse o essencial das nossas necessidades neste domínio e uma indústria ligada ao mar que potenciasse os anos vindouros, teríamos cumprido aquele que penso ser o nosso objetivo maior: deixar um Algarve melhor à geração seguinte.

J.A. – Acredita mesmo que a pesca e a agricultura, atividades económicas tradicionais do Algarve, ainda podem recuperar algum fulgor na região?
L.C. – Em 2015, último ano para o qual o INE tem dados disponíveis, os setores agricultura, produção animal, caça, floresta e pesca geraram conjuntamente 205,8 milhões de euros de VAB no Algarve, o que equivale a 3% do total da região. Dez anos antes, o VAB gerado por estes mesmos setores ascendeu a 198 milhões de euros, representando na altura 5,3% do total. Verifica-se, pois, que ao longo do tempo estes setores aumentaram a sua contribuição nominal para a criação de excedente produtivo no Algarve, mas perderam importância económica relativa na região. Ainda assim, pelo que vou acompanhando, há algumas boas notícias neste campo. Na agricultura é bem conhecido o caso dos citrinos e, sobretudo, dos frutos vermelhos, cuja produção tem como destino quase exclusivo a exportação. Pelo que vou ouvindo, também se está a instalar uma produção interessante de abacates no Algarve, tendo-se vindo a recuperar a produção de amêndoa e a tentar valorizar a alfarroba, fruto que por cá existe em abundância. Assim, o esforço que temos vindo a fazer neste campo é meritório e merece continuar. De facto, como referido anteriormente, a incorporação da produção agrícola regional na restauração local permite obter um efeito multiplicador interessante quando o consumidor final é o turista. Por outro lado, é possível rentabilizar a produção – tipicamente de grande qualidade – nos mercados internacionais, o que aumenta o potencial financeiro dos produtores e ajuda a equilibrar as contas externas do país. Posto isto, no curto prazo, penso que os maiores desafios que se colocam à agricultura passam pela necessidade de captar financiamento para continuar a modernizar o setor, promover o associativismo de forma a se possa divulgar convenientemente o nosso produto nos mercados internacionais e captar trabalhadores que estejam disponíveis para desempenhar tarefas fisicamente exigentes. No longo prazo, há que pensar nos possíveis efeitos das alterações climáticas, os quais podem condicionar a quantidade de água doce disponível, algo que a concretizar-se terá seguramente implicações sérias para a agricultura.

J.A. – Que papel é que a Ordem dos Economistas pode ter no apoio à economia algarvia?
L.C. – A Ordem dos Economistas procura assumir um papel, junto da sociedade portuguesa, que em muito extravasa o da simples representação de uma classe profissional. Em particular, através das suas diversas ações e atividades, a OE contribui para a análise dos problemas económicos que afetam o país, propondo soluções e ideias que visam melhorar as condições de vida dos portugueses. No que toca à ação concreta da delegação regional do Algarve junto do tecido empresarial regional há, assumidamente, muito para fazer. De facto, desde a sua constituição, em 2015, a delegação tem vindo a trilhar um caminho que se pauta por dois vetores essenciais: primeiro, consolidar a sua base de membros por forma a ganhar escala e expressão na região; segundo, construir pontes com todos os agentes (públicos e privados) da região.

J.A. – Quais são os planos imediatos da delegação do Algarve da Ordem dos Economistas? E futuros?
L.C. – Os órgãos atualmente em funções foram eleitos em novembro de 2017, tendo apresentado a sufrágio um programa assente em três pontos essenciais: Primeiro, aumentar o envolvimento dos membros nas diferentes atividades da OE; Segundo, promover o papel do economista na região do Algarve; Terceiro, reforçar o número de membros da OE na região do Algarve. Assim, até 2021, são estes os princípios que vão nortear a nossa atividade. Neste particular, em 2018, temos vindo a concretizar alguns aspetos específicos como sejam: a criação de um mecanismo de comunicação ágil com os membros da OE; a realização de palestras abertas ao público sobre temas de interessa para a região; ou a criação de um prémio carreira para distinguir os economistas que mais contribuíram para afirmar a Ordem e promover o bem-estar social através da sua atividade profissional e intervenção na esfera pública. Temos, também, aprovado um regulamento que vai permitir premiar os melhores trabalhos de investigação que venham a ser produzidos na academia algarvia ao nível dos segundos ciclos já a partir de 2019.

 

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“O cerne da questão é: quem negocia os termos do contrato de petróleo?”

 

J.A. – Como economista, o que pensa sobre a eventual exploração de petróleo no Algarve?
L.C. – Este é um tema muito controverso no seio da sociedade algarvia. Ainda assim, como economista, admito que será importante perceber qual é o verdadeiro potencial económico da região no que toca à produção de hidrocarbonetos. Imaginemos por um instante que a costa algarvia tem reservas que, em fase de cruzeiro, permitem igualar a escala de produção da Noruega, estimada em 1,647,975 barris/dia (dados de 2016). Tal colocaria Portugal no top 15 de produtores mundiais de crude, algo que poderia mudar a vida coletiva do país. Logo, a inventariação da tipologia e quantidade potencial deste recurso parece-me ser uma tarefa importante.

J.A. – A sua opinião como economista difere da sua opinião enquanto cidadão algarvio?
L.C. – Totalmente. Como cidadão não tenho dúvidas do caminho que tem de ser feito pela humanidade: descarbonização total da economia no mais curto espaço de tempo possível. Independentemente de se acreditar ou não na existência de uma alteração profunda do padrão climático do planeta e, dentro do tema, se a ação do homem contribui ou não de alguma forma para tal, estou convicto que o mundo respirará melhor se for possível dar conta das nossas necessidades energéticas com base em recursos renováveis. Neste contexto, o Algarve tem até muito a dizer. Em particular, somos uma das zonas da Europa com maior exposição solar durante o ano. Temos, também, uma linha de costa relativamente grande e condições para aproveitar o vento como fonte de energia. Logo, olhando para a herança que penso ser a que queremos deixar aos nossos netos, é nossa obrigação desenvolvermos a tecnologia que nos permita entregar-lhes um planeta que ainda consiga acomodar a vida humana e lhes dê a possibilidade de desfrutarem da nossa região como nós hoje o fazemos.

J.A. – Mas a exploração de petróleo iria trazer benefícios económicos para a região e para o país, ou não? Porquê?
L.C. – A exploração de hidrocarbonetos poderá ser economicamente interessante para o país em condições particulares. Primeiro, é preciso que o recurso exista em quantidade e qualidade suficiente para merecer o investimento – sempre avultado – na sua extração. Depois, é importante garantir que o país é devidamente compensado por essa atividade. Quer isto dizer que, dada a falta de capacidade do Estado para explorar o recurso na forma em que este se materializa na natureza, o Governo teria de contratar uma entidade terceira para o fazer. Para mim, o cerne da questão reside aqui: quem negocia os termos deste contrato? Olhando para o lado de quem poderia tratar da extração dos hidrocarbonetos é fácil perceber quem são os players: multinacionais gigantes e muito poderosas, munidas dos melhores especialistas que existem no mercado. Do lado do Estado, o cenário não é tão risonho. De facto, independentemente do governo que teve a responsabilidade de negociar os principais contratos com terceiros que existem no país, fica sempre a sensação de que as legítimas expectativas (e direitos) dos contribuintes foram defraudadas. Veja-se, como mera ilustração, o que se passa nas parcerias público-privadas rodoviárias ou as que existem na área da saúde. Posto isto, ficaria muito mais descansado sobre o tema da utilidade da exploração de hidrocarbonetos em Portugal do ponto de vista do interesse do Estado se a negociação do nosso lado fosse feita por quem já mostrou serviço nesta matéria.

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Dar voz aos economistas do Algarve

A Ordem dos Economistas (OE) foi fundada há vinte anos e conta atualmente com cerca de onze mil membros. A estrutura chegou ao Algarve em 2015, por iniciativa de Pedro Pimpão, que foi o primeiro presidente da delegação regional e o grande entusiasta deste projeto, que conta com cerca de 250 membros na região. “De facto, só a capacidade do Pedro para congregar vontades e a sua dedicação a esta ideia permitiu começar a dar corpo ao que hoje existe na região como delegação da OE no Algarve”, recorda o presidente que o sucedeu, no final do ano passado.
Luís Coelho lembra-se ainda das primeiras conversas com Pedro Pimpão sobre o tema, no distante ano de 2011. “A ideia era simples: dar voz aos economistas do Algarve através de uma plataforma bem definida e sob o chapéu de uma ordem profissional devidamente organizada. Ele falava com entusiasmo desta ideia porque acreditava que tínhamos uma palavra importante a dizer sobre os temas que marcavam a realidade económica da região e estava convencido de que teríamos a capacidade para nos organizarmos nesse sentido”, frisa o atual presidente da delegação regional.
Luís Coelho, 39 anos, natural de Évora, chegou a Faro em 1998 para estudar economia na Universidade do Algarve. Foi na academia algarvia que descobriu o gosto pelo ensino, algo que o acompanha até aos dias de hoje.
Pelo meio, experimentou a consultoria empresarial e o setor bancário por um breve período, tendo ainda passado um ano na delegação regional do Algarve do Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM), onde ia auxiliando nas tarefas relacionadas com a gestão. Esteve ainda em Lisboa, onde assumiu a pasta do planeamento do INEM.
Mais tarde, regressou a Faro e à Faculdade de Economia, primeiro como assistente e, depois de obter o doutoramento, em 2008, como professor auxiliar.

 

Nuno Couto|Jornal do Algarve

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