“Os profissionais de saúde não querem palminhas, querem respeito”

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Num momento em que as unidades de saúde da região se veem a braços com a falta de recursos, a rutura dos serviços de urgências e os efeitos da nova variante Ómicron, que tem levado o Algarve a bater records de infeções dia após dia, a presidente do Conselho de Administração do Centro Hospitalar Universitário do Algarve (CHUA), Ana Filipa Vargues Gomes, faz o diagnóstico à saúde do SNS na região e dá respostas aos utentes algarvios

JORNAL do ALGARVE (J.A.) – Quais as fragilidades dos serviços de saúde na região, mesmo fora do período de pandemia, e que agora se mantêm ou agravam?

Ana Vargues Gomes (A.G.) – As pessoas ainda não perceberam bem o que têm à disposição. As pessoas no Algarve estão habituadas a ir às urgências por qualquer coisa quando há vários serviços à disposição. Existem os médicos de família, consulta aberta, atendimentos para doentes respiratórios nos centros de saúde, há serviços de urgência básica em alguns pontos da região e muitas vezes as pessoas não acedem a estes serviços primeiro. Numa semana atendemos 2000 crianças no serviços de urgência entre Faro e Portimão e este é um número perfeitamente descabido para a população que temos. Assim não há nenhum sistema que possa funcionar bem. As pessoas têm que perceber que não é no hospital que resolvem tudo.


J.A. – Tem funcionado a articulação entre os hospitais e os centros de saúde da região?
A.G. – Nós temos articulado até com os colegas dos cuidados de saúde primários, nomeadamente nesta questão da pediatria, e posso-lhe dizer que desde que articulámos com os centros de saúde diminuímos bastante o número de doentes na urgência e, portanto, é porque há reposta. As pessoas têm um problema e vão para o hospital porque é a porta que está 24 horas aberta.


J.A. – Qual é o cenário das urgências nos picos da pandemia?
A.G. –
No ano passado, quando estivemos com a última vaga de covid, as urgências nunca tiveram problema nenhum porque as pessoas não iam à urgência. Ia à urgência quem precisava de ir à urgência. Isto quer dizer que se for à urgência quem realmente precisar, as urgências funcionam.


J.A. -Como é que o Hospital de Faro se adaptou à pandemia?
A.G. – Faro neste momento tem um hospital que tem muitos anos. Não há a possibilidade de o fazer crescer. Temos conseguido fazer algumas obras, mas não há como fazer crescer o espaço. Por isso criámos todos os circuitos respiratórios e há os contentores que fazem o circuito do doente respiratório.


J.A. – É possível manter a atividade normal de um hospital em plena pandemia?
A.G. –
O que acontece é que há alas no hospital que estão para internamento de doentes covid. Ora, eu antes não tinha essas alas e ainda assim, na altura do inverno, já tínhamos falta de camas para internar pessoas. A solução mais fácil seria encerrar atividade e nós não o fizemos. Nós expandimos a capacidade de internamento de doentes não covid para fora da instituição: para o antigo Hospital de Santa Maria e para o Hospital de São Gonçalo .


J.A. – Há muitas reclamações sobre as condições do CHUA?
A.G. – É verdade que existem. E porquê? Porque estamos a dar resposta a uma situação que é nova, alargamos internamento e não conseguimos recrutar mais pessoas. Estamos a fazer muito mais com as mesmas pessoas. E não é falta de vontade de contratar. Não há pessoas para contratar. Temos corrido tudo…


J.A. – Essa questão leva-nos à falta de atratividade do SNS de que tanto falam os profissionais de saúde… Como é que o CHUA está a resolver a questão da falta de recursos humano?
A.G. –
Nós temos estado a tentar de tudo para que as pessoas queiram ficar connosco. Em 2022 vamos investir em creches para os profissionais da nossa instituição que permitam ter horários diferentes e mais condições para as pessoas estarem cá. Não posso aumentar ordenados e, portanto, aquilo que tenho para dar são condições para as pessoas. Vamos também ter mais casas para acolhimento temporário para funcionários.


J.A. – Os utentes queixam-se que há cada vez menos consultas de especialidade, listas de espera maiores e que é cada vez mais difícil conseguir uma marcação. É verdade?
A.G. – Não é verdade a questão das listas de espera. Até lhe posso dizer que temos neste momento as listas de espera de consultas e cirurgias mais baixas do que antes do covid. Temos também mais especialidades do que tínhamos. Temos cirurgia vascular e mais capacidade na cirurgia pediátrica. Em termos de primeiras consultas temos estado a recuperar também. O problema maior tem a ver com oftalmologia, mas ainda assim estamos a recuperar.


J.A. – Relativamente aos atrasos administrativos… o covid também é o culpado?
A.G. – É verdade que durante o covid poderá ter havido algum atraso no que toca aos relatórios médicos e afins e porquê? Porque estamos a dar resposta ao que é necessário. Percebo que as pessoas precisem deste tipo de documentação, mas entre tratar doentes ou passar relatórios médicos… Para o médico fazer relatórios não vê um doente. Se tivermos um número de relatórios que é completamente insano para um médico passar, ele vai ter que o fazer não marcando consultas ou não operando.


J.A. – Ouvimos muitas vezes que “os profissionais de saúde dão o que têm e o que não têm”. É suposto os profissionais de saúde darem o que não têm ou é o SNS que tem de garantir condições de trabalho dignas e justas para todos?
A.G. –
Toda a gente deu o que tinha e o que não tinha. Os profissionais de saúde estão sem férias há dois anos. Para nós não é uma questão de ficarmos aborrecidos por não pudermos ir a uma discoteca. É uma questão de não irmos a casa, de não estar com a família e de não ver os filhos para tomar conta daqueles que não querem ser vacinados, porque é um direito que lhes assiste, mas nós não temos o direito de não assistir estas pessoas, que são as que estão internadas connosco. As pessoas esqueceram-se dos direitos dos profissionais de saúde.


J.A. – Os limites dos profissionais de saúde já foram ultrapassados?
A.G. –
Muitos profissionais já ultrapassaram o máximo das suas capacidade. A quantidade de horas extraordinárias que foram feitas em dois anos é algo incrível e isto só se consegue porque as pessoas são profissionais. Estas profissões não são iguais às outras. Para nós não é uma questão de opção. Os profissionais de saúde não querem palminhas, querem respeito.


J.A. – A fusão dos hospitais públicos da região foi uma boa estratégia?
A.G. –
A fusão dos hospitais não foi conduzida, na altura, da melhor forma, apesar de fazer sentido na região. O facto de o CHUA ser o único Centro Hospitalar da região e ao agregar toda a área tem vantagens. A saúde é tratada como um todo, para além da possibilidade de articulação com os cuidados de saúde primários. Pouco a pouco tem entrado a mentalidade que somos CHUA, uma entidade única e este é um espírito fundamental para elevar a saúde a um patamar diferente na região.


J.A. – O arranque do novo Hospital Central do Algarve está na sua lista de desejos para 2022?
A.G. –
O novo Hospital é uma questão necessário, mas nada adianta umas paredes novas se não houver gente para trabalhar. Tudo está a ser feito que que este Hospital seja uma realidade o mais brevemente possível. Não há como não avançar o novo Hospital Central do Algarve. Apesar da necessidade, há que olhar para o presente e para o futuro enquanto não há outro hospital e assegurar a prestação de cuidados de saúde nos próximos três ou quatro anos, que será o tempo que normalmente um hospital demora a construir. Foi um grave problema acreditar que o novo Hospital iria resolver tudo e deixou de se investir no que temos. Nós continuamos a investir no CHUA para garantir que há pessoas para trabalhar no presente e no futuro.


J.A. – O que podem os algarvios esperar das unidades de saúde da região em 2022?
A.G. –
Temos estado a reequipar e modernizar com equipamentos que não existiam e remodelando outros. Temos investimentos aprovados para a modernização de edifícios, como é o caso da Psiquiatria e para o desenvolvimento da área da Procriação Medicamente Assistida. Em 2022 os algarvios poderão contar com uma saúde que vai ter equipamentos mais modernos e que vai levar a que os utentes não tenham que ir a Lisboa tantas vezes. Este ano vai trazer claramente uma melhoria nos cuidados de saúde na região.

Joana Pinheiro Rodrigues

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