REPORTAGEM

Vamos ter primeiro viveiro de amêijoas oceânico do mundo

Amêijoa
Amêijoa

Começará dentro de uma semana, ao largo do Alvor, a sementeira do primeiro viveiro de amêijoas em mar aberto do mundo. O projeto, que globalmente já vai em seis milhões de euros, visa a sementeira, engorda e apanha de amêijoa, em pleno mar aberto, numa estrutura de 100 hectares, a 5 km da costa. Produzirá 600 toneladas de amêijoa, primeiro da espécie macha e depois também da boa

A instalação da estrutura será a 5km de Alvor

Deverá começar a operar ainda antes do fim de janeiro, ao largo de Alvor, o primeiro viveiro de amêijoas do mundo instalado em pleno oceano, disse esta semana ao JA o fundador do projeto, Bernardo Carvalho, adiantando que se trata de um investimento de 3,1 milhões de euros só na estrutura do barlavento algarvio, mas que no total já vai em seis milhões, se estiver incluída a estrutura complementar de apoio na Nazaré.


Designada Oceano Fresco – nome que se estende à marca dos produtos que irá comercializar dentro de poucos meses -, a empresa da Nazaré prepara-se para começar a cultivar as primeiras amêijoas machas, numa megaestrutura de 100 hectares (uma centena de campos de futebol) que foi sendo construída ao longo dos últimos meses a cerca de 5 quilómetros da costa do Alvor, junto à cidade de Portimão.


As sementes ainda se encontram na sede da empresa na Nazaré e dias antes da sementeira percorrerão por via rodoviária as centenas de quilómetros que as separam da costa de Alvor. “Ao contrário dos peixes, as amêijoas vivem bem em seco. Serão transportadas submersas em gelo, hibernadas”, explica Bernardo Carvalho.


Essa sementeira começará nos últimos dias deste mês com recurso a uma embarcação que já se encontra na zona, adquirida em França em setembro, que se dedicava ao cultivo e apanha de ostras e foi recondicionada para a ameijoa num estaleiro em Peniche, segundo disse ao JA o mesmo responsável. A ela se juntará, dentro de um ano, uma outra embarcação congénere ainda em construção.

Barco de cultivo


“São barcos de cultivo, como um trator. O trabalho é irem todos os dias ao mar. É tipo um atuneiro, de casco chato e convés plano. Na fase da apanha, usa uma grua que tem à frente, que levanta a ‘lanterna’ [estrutura de tipo celular onde se encontram os bivalves], que está dentro de água cheia de amêijoas, que pesa uma tonelada, e depois as coloca no convés, onde há máquinas que trabalham essas amêijoas. Na prática, é uma fábrica flutuante. Sempre a trabalhar, a tirar as lanternas e voltar a pôr. Levanta, tira as amêijoas, limpa a lava, calibra o tamanho das amêijoas e volta a colocar uma nova lanterna”, detalha o CEO da empresa nazarena, explicando que se trata de um trabalho mastodôntico, nesta fase em que trabalha apenas para um barco, que terá ainda a tarefa de transportar os bivalves para terra.


Antes disso, a amêijoa será criada em suspensão e não na lama, o que acontece pela primeira vez em Portugal: “Na Galiza já se faz a criação de ameijoa em suspensão, sem que haja lama no processo. Dizer que é preciso lama para alimentar o bivalve com matéria orgânica é um mito, a amêijoa alimenta-se de plâncton. Juntamos isso com a tecnologia de viveiro em mar aberto que já foi feito em outros sítios do mundo para a ostra e o mexilhão. A tecnologia é a mesma dessas experiências, mas é a primeira vez que vai ocorrer numa espécie autóctone europeia, que está em desaparecimento”, explica o CEO da Oceano Fresco.

Inovar, mas manter preços de venda

Bernardo Carvalho,
CEO da empresa
Oceano Fresco


Para já a espécie em crescimento ao largo do Alvor será apenas a amêijoa macha, mais apreciadora de baixas temperaturas do que a “boa”, considerada uma espécie de “prima dona” da amêijoa pela sua alta mortalidade e dificuldade de cultivo, mas no futuro as duas espécies dividirão o terreno de cultivo.


A Oceano Fresco tem marca e conceito próprio. A grande maioria das 600 toneladas anuais a produzir terá marca própria, a comercializar em Portugal e Espanha. E quanto a preços, “vamos vender ao preço de mercado, nem vendemos mais caro nem vamos rebentar com o preço. Não existimos para influenciar o preço”, assevera Bernardo Carvalho.


E afinal as 600 toneladas de produção anual previstas para a empresa representarão no futuro cerca de 15% da produção legal total de amêijoas no Algarve, mas cairá para os 3% se considerarmos a soma da produção legal e da imensa outra que escapa ao controlo das autoridades, que ascenderá a 20 mil toneladas, segundo disseram esta semana ao JA fontes do setor.


Sobre a qualidade do produto, Bernardo Carvalho assegura que as amêijoas que saírem da instalação offshore “serão gordas porque estão sempre debaixo de água, ao contrário de outras que estão em zonas entre marés e passam metade do dia fora de água. A hidratação é conferida pela quantidade de plâncton e horas que ficam debaixo de água, o que nos dois casos é maximizado”.

As sementes que chegam da Nazaré


A grande estrutura construída nos últimos meses é toda submersa, à tona da água só se veem bóias, diferentemente do peixe criado em offshore, em que as armações da estrutura são visíveis, explica o CEO da Oceano Fresco. “O que está submerso são blocos de betão aos quais estão ligados cabos que estão na vertical e na outra ponta desses cabos estão boias, em tensão. Na horizontal estão os cabos mãe, que é onde se vão encaixar as lanternas de cultivo”, explica o responsável da empresa do Oeste, assinalando que a estrutura é sinalizada por boias com luzes nos cantos, para evitar incidentes com embarcações. Encontra-se a 30 metros de profundidade.

A estrutura é toda submersa, à tona só se veem as bóias


A comercialização do produto será operada em fresco ao consumidor. “Podemos também vender a granel para ser embalado por marcas de terceiros, mas só o faremos para ganhar volume de venda, pois não é essa a nossa estratégia comercial”, pormenoriza o fundador da empresa.


O início da operação, dentro de alguns dias, será o culminar de uma longa espera de cinco anos pelo licenciamento do viveiro, a que se juntam outros três anos de desenvolvimento de conhecimento científico sobre as duas espécies de amêijoa em causa.


Tudo começou pela criação de um centro biomarinho de última geração na Nazaré, para estudar métodos de seleção, melhoria de produção e de sustentabilidade de espécies nativas europeias de bivalves.


Mas será como maternidade que o centro biomarinho na Nazaré adquirirá importância, pois ele vai produzir as sementes de amêijoas para serem cultivadas no viveiro instalado ao largo de Alvor.


No viveiro será completado o ciclo de cultivo biológico: após a desova, e na fase de incubação, as amêijoas precisam crescer até ao tamanho adulto, altura em que podem ser apanhadas e comercializadas. O tempo necessário para crescerem até ao calibre ideal para comercialização ainda é desconhecido com precisão, mas Bernardo Carvalho estima que o ciclo completo no Algarve possa demorar entre um ano e meio a dois anos, dependendo da espécie, a boa (mais lenta) ou macha (mais rápida).


Seja como for, se a pandemia deixar e a vacina ajudar, os primeiros moluscos poderão começar a “sair da casca” em meados do próximo ano, ajudando a animar o primeiro verão pós-pandemia. Então já com a ajuda da outra embarcação, atualmente em construção.


Contudo, acautela Bernardo Carvalho, “se o covid continuar e o canal HORECA estiver fechado, vai-se vender mais em supermercados e mercados. A estratégia terá que ser outra”.

João Prudêncio

Bivalvia, o outro viveiro inovador
A ostra francesa que cresce na Ria Formosa e regressa a casa

Quando nasceu enquanto estrutura física, em março de 2013, dedicava-se à produção de ostra e amêijoa boa, mas hoje a Bivalvia – empresa criada em 2010 – dedica-se em exclusivo à ostra. E constitui a prova de que a inovação, em matéria de produção de bivalves, não é apanágio exclusivo da Oceano Fresco.


A grande novidade da empresa da Ria Formosa – situada a meio caminho entre Faro e Olhão – é que se dedica à produção de ostra apenas na fase da sua infância: não é uma maternidade nem se dedica à comercialização já em fase adulta.


“O nosso projeto inicial era de fazer uma maternidade, mas agora não é bem isso. Somos um berçário, começamos com ostra com 2 mm e engordamos até aos 15 mm, já com 2 a 3 gramas. Compramos as sementes em França, fazemos a fase da pré-engorda e depois comercializamos, para que os clientes façam a a engorda propriamente dita”, explicou ao JA o empresário Rui Moreira, da Bivalvia.

Sementes de ostra de França


Um berçário que, quando surgiu há menos de sete anos, foi considerado inovador: “Um inglês especialista no meio, dizia-nos que nunca tinha visto ninguém começar pelo meio. Ou se começa pela maternidade ou pela engorda. A princípio era difícil, mas depois começámos a perceber que era facílimo adquirir as sementes em França. E abandonámos a ideia da maternidade”, explica o gestor, admitindo que se trata de uma empresa de “import/export, curiosamente embora grande parte dos juvenis pré-engordados tenha como destino viveiros instalados em Portugal.


Com 16 hectares de extensão, a estação da Bivalvia tem tanques onde os moluscos são criados até aos 6 mm, os berçários propriamente ditos e viveiros onde se desenvolvem dos 6 mm até aos 15 mm, compreendendo também uma estrutura de produção de microalgas, o alimento das ostras juvenis.


A empresa implicou um investimento, até ao momento, de cerca de 1,2 milhões de euros, dos quais perto de 800 mil foram considerados investimento inicial.
J.P.

PUB
Tamanho da Fonte
Contraste