REPORTAGEM

Doentes “não covid” lutam pela vida no SNS

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Os recursos do Serviço Nacional de Saúde (SNS) eram escassos e a capacidade de resposta das unidades de saúde da região era insuficiente. Agora, nestes últimos dois anos de crise sanitária global, há pessoas que foram, estão a ser, deixadas para trás. Dizem-nos que o seu direito à saúde foi abalroado pelo vírus. O JA ouviu o testemunho daqueles que se sentem esquecidos pelo SNS e procurou encontrar respostas junto de agentes e responsáveis pela saúde no Algarve.

Ana quase perdeu o pai, agora com 67 anos, que esteve demasiado tempo em lista de espera para um cirurgia. Manuel demorou meses a voltar à fisioterapia depois de sobreviver a um AVC. A úlcera de António é o preço a pagar por ter esperado quase um ano para ter uma consulta de especialidade. O rastreio cancelado poderia ter descoberto o tumor de Maria mais cedo. Estes utentes algarvios fugiram ao vírus, mas a pandemia da covid-19 quase lhes custou a vida.


A falta de acesso aos cuidados de saúde durante meses a fio e a ausência de acompanhamento médico nos períodos em que covid-19 obrigou os serviços de saúde a dedicarem-se quase exclusivamente a uma nova doença, levou estas pessoas, e tantas outras, a serem apanhadas por outra pandemia: a pandemia silenciosa das doenças não covid.


Ana, Manuel, António e Maria partilham o sentimento de abandono e a tristeza pela forma como as suas situações e dos seus familiares (não) foram conduzidas ao longo de quase dois anos. Uma realidade vivida na penumbra de um sistema virado para a crise pandémica, escondida de uma voracidade mediática “entretida” com a verdade pandémica e que assim se mantém mesmo quando os media se interessam por essa “outra” verdade: nenhum daqueles quatro utentes com quem falámos quis “dar a cara” ou deixar-se fotografar pelo JA para esta reportagem.


Para Ana, foi um “pesadelo” ver o pai a piorar “de dia para dia”, na altura do primeiro confinamento “e receber uma chamada do Hospital de Faro a dizer que a operação aos olhos ia ser adiada por causa do covid”, recorda com a voz trémula. O pai de Ana faz parte dos milhares de pessoas que viram a sua saúde ser colocada em pausa.


São casos concretos de uma realidade que também os números escarrapacham em todo o seu esplendor: a quase totalidade das unidades de saúde familiares (Algarve incluído) mobilizaram até 80% dos enfermeiros e 60% dos médicos para o combate à covid-19, de acordo com as estatísticas da Associação Nacional de Unidades de Saúde Familiar.


Questionada acerca do adiamento de consultas e cirurgias no Centro Hospital Universitário do Algarve (CHUA), a presidente do Conselho de Administração daquela instituição, Ana Filipa Vargues Gomes jura que “não existe só covid” e que o CHUA “continua a responder às outras situações, numa tentativa de recuperar as listas de espera de consultas e cirurgias para não prejudicar mais os doentes que inevitavelmente ficaram para trás”, como é o caso de António, outro dos lesados dos efeitos indiretos da pandemia nas unidades de saúde da região.


Relatando o seu caso, António, 64 anos, contou ao JA que começou a sentir que algo não estava bem no final do verão de 2020. As dores no abdómen levaram-no até ao Centro de Saúde de Albufeira em meados de outubro de 2020, em plena ascensão da pandemia, numa altura em que não conseguiu ser visto pelo médico de família “porque estava a fazer serviço covid”. Mais tarde, lá conseguiu que outro médico o referenciasse para uma consulta de gastroenterologia no Hospital de Faro, o que só viria a acontecer nove meses depois. “Bem, todos sabemos que a saúde não espera e nessa altura, viram que era uma úlcera e se não fosse tratado naquele momento não estaria a falar consigo”, assegurou tristemente, mas ciente da “sorte” que teve por ainda ter sido visto a tempo.


Perante situações como esta, Ulisses Brito, presidente do Conselho Sub-Regional da Ordem dos Médicos e diretor do Serviço de Pneumologia do Hospital de Faro admite “tempos de crise na saúde” e diz que casos como este são uma “contingência inerente à situação”, porque “os profissionais são os mesmos, não esticam e se são recolocados em determinadas tarefas falham noutras”, lançando para a discussão a problemática da falta de profissionais, uma realidade que atormenta as direções dos serviços de saúde na região.


A falta de enfermeiros, médicos, técnicos e auxiliares é um velho “fantasma” que assombra o Algarve. “Tomara eu ter muito mais gente que pudesse contratar para que os que tenho pudessem descansar e isso não é possível porque não conseguimos gente em lado nenhum”, revelou a presidente do CHUA.

Nuno Sérgio Branco, presidente do Conselho Directivo da Secção Regional do Sul

Enfermeiros são metade da média da OCDE


Nuno Sérgio Branco, presidente do Conselho Diretivo Regional da Ordem dos Enfermeiros, confirma a situação e sublinha que “existe uma especial criticidade e um agravamento dos problemas de saúde na região porque o Algarve tem apenas 4,5 enfermeiros por mil habitantes, número que se distancia da média da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) que tem um rácio de nove enfermeiros por mil habitantes”.


No que toca aos médicos de família, o Sindicato Independente dos Médicos veio esta semana denunciar que os médicos “continuam amarrados de pés e mãos” e que são “requisitados à socapa para tarefas relacionadas com a pandemia e também cada vez mais ocupados com trabalhos burocráticos (vigilância de casos positivos assintomáticos, atestados de amamentação, cartas de condução…), obrigados a serem secretários das ineficiências da Segurança Social (baixas, relatórios, atestados…), gestores coagidos às manipulações de custos entre hospitais e centros convencionados, ‘copiando’ prescrições alheias como se nada mais houvesse a fazer…”, o que por si só ajuda a perceber o que se está a passar no SNS.


A próxima história é a de Manuel, hoje com 70 anos, e vai precisamente ao encontro da falta de recursos num setor que parece ter virado todos os esforços para o novo coronavírus. O AVC de Manuel, marido de Teresa, apanhou a família de surpresa no início de 2020, o que acabou por coincidir lamentavelmente com a explosão da pandemia no País. Apesar das sequelas não terem sido profundas, Teresa acredita que o marido poderia estar hoje “muito melhor” se não fosse o intervalo de tempo que esteve sem fisioterapia (cerca de cinco meses), o que “atrasou a recuperação e fez com que ele ficasse muito abatido psicologicamente”, lamenta, de lágrimas nos olhos.


Na visão do enfermeiro Nuno Sérgio Branco, “a saúde da população algarvia ficou comprometida e sabe que “tudo o resto ficou condicionado” para dar resposta aos doentes covid. Por este andar, num contexto onde faltam recursos humanos, onde os serviços assistenciais continuam reduzidos, onde as camas nem chegam para os infetados, onde os equipamentos são insuficientes e onde há profissionais esgotados, corremos o risco de termos cada vez mais doentes irreparáveis na região.

Recurso ao privado e doentes tratados em piores condições


Maria, agora com 45 anos, é outra das utentes algarvias que faz parte do grupo (cada vez maior) de “doentes evitáveis”. O privado foi a sua “salvação”.

O rastreio do cancro do colo do útero devia ter sido feito por Maria em 2020, numa das unidades hospitalares da região, o que acabou por não acontecer. O culpado é o do costume, o covid, que seca recursos à sua volta. Com receio de se deslocar aos hospitais e impossibilitada pelo “tsunami” de remarcações entre maio de agosto de 2021, Maria deixou passar mais de um ano até voltar a fazer a fazer exames e as notícias não foram as melhores (apesar de menos más). Um tumor, ainda que benigno, roubara-lhe a paz e o sorriso e diz mesmo que recorrer ao privado “foi a única forma” de a olharem “com olhos de ver”. Nos últimos meses, Maria diz que se sentiu “descartável” e “negligenciada” perante a sua situação e acredita mesmo que “estão e vão deixar morrer pessoas que têm os mesmos direitos dos doentes covid”, alerta.


Ulisses Brito reconhece que “os doentes estão a ser tratados em condições piores do que aquelas que merecem, mas não há muitas alternativas”. A dificuldade em conciliar a atividade não covid com as “ondas” pandémicas é uma realidade. Contudo, para Nuno Sérgio Branco, existem outros problemas que estão na base da situação que se vive no Algarve. Nas suas palavras, há uma “tendência de desfalque assistencial ao nível dos cuidados de saúde primários com uma clara falta de investimento nos centros de saúde, o que acaba por levar os utentes ao hospital que não careciam de resposta hospitalar, sobrecarregando os serviços”.

Ulisses Brito, diretor do Serviço de Pneumologia do Hospital de Faro

CHUA desmente ordens e sindicatos


Por seu lado, Ana Vargues Gomes responde que a falta de acesso aos cuidados de saúde na região “não corresponde à verdade”, alegando que “a articulação dos hospitais da região com os centros de saúde” é a prova de que há resposta. Ora, como já aqui se disse, um estudo divulgado esta semana pela Associação Nacional de Unidades de Saúde Familiar diz-nos exatamente o contrário: a quase totalidade das unidades de saúde familiares (Algarve incluído) mobilizaram até 80% dos enfermeiros e 60% dos médicos para o combate à covid-19. O bastonário da Ordem dos Médicos disse, em março de 2021 que “houve uma tentativa real, legislada em despacho ou em decreto, para que os profissionais dos hospitais ou dos centros de saúde se dedicassem prioritariamente à doença Covid-19. E isto tem um impacto brutal, também, naquilo que foram os atrasos”. Os números refletem esse discurso: o “Movimento Saúde em Dia”, que integra médicos e administradores hospitalares lançou recentemente um estudo que confirma o cenário de adiamentos massivos durante pandemia. A nível nacional, entre 2020 e 2021, ficaram por realizar 14 milhões de consultas em centros de saúde, 4,5 milhões de contactos nos hospitais, o que inclui consultas, cirurgias, urgências e internamentos e 30 milhões de exames. Até ao fecho desta edição, o JA não teve acesso a dados regionais.


Do lado dos profissionais de saúde e no caso dos enfermeiros da região, Nuno Sérgio Branco traça um quadro de “desespero” e “revolta” porque “já foram ultrapassados os limites físicos e psicológicos e até éticos, quando os enfermeiros têm a seu cargo um número de doentes para o qual não conseguem garantir a sua segurança”, denuncia. Tiago (nome fictício) é enfermeiro no CHUA e fez-nos a sua análise: “Com a chegada da pandemia pouco mudou , a não ser o facto de que as lacunas previamente apontadas pelos enfermeiros como a falta de recursos materiais e humanos, remuneração justa, opções de progressão na carreira, etc., se fazem cada vez mais sentir. Os profissionais não são ouvidos. Sentimos de desapreço e desrespeito da população e por parte do Governo face ao esforço diário que fazemos”, deplora em tom revoltoso.

A “covidização” da saúde e o milagre das teleconsultas


Os utentes com quem falamos não culpam em momento algum os profissionais de saúde. Fizeram até questão de frisar a “empatia”, a “preocupação” e o “cuidado” de quem lhes “atendia o telefone” ou aqueles que acompanhavam as situações “dentro do possível”. Estes utentes culpam sim “os governantes” e “quem não saber gerir a saúde”.


A nível governamental, na opinião de Nuno Sérgio Branco “não têm sido desenvolvidas as melhores estratégias de gestão para corrigir aquilo que está mal”. Defende que é preciso “agir atempadamente, algo que não temos feito” e o que tem posto em causa a resposta assistencial das unidades de saúde na região. “Não podemos correr atrás do prejuízo e reagir apenas quando o problema está instalado e é o que temos feito com esta pandemia. Infelizmente parece que não aprendemos nada”.


Antes da pandemia, “todos os utentes eram democraticamente considerados doentes. Agora, o covid obriga-nos a distinguir entre os doentes covid e os outros doentes”, explica-nos João Santos, um médico da região “consciente de tudo o que está a correr mal e do preço que podemos vir a pagar pela ‘covidização’ da saúde”, como lhe chama, mas também por se ter achado que “as teleconsultas resolviam os problemas das pessoas”.


Desamparadas, estas pessoas lamentam que a pandemia as tenha arrastado para segundo plano, fazendo com que a “ansiedade” e a “angústia” se instalassem nas suas vidas. Do que ouvimos e do que vemos, a pandemia trouxe medo e sobressalto a quem precisa de recorrer ao SNS. Não foi só o SNS que se tornou mais frágil. Mais do que nunca e dado o panorama de adiamentos e cancelamentos do SNS, as pessoas estão mais expostas à doença e em risco. Neste sentido, “se a saúde dos utentes for encarada como um bumerangue, o Sistema não pode esquecer que a pandemia das doenças não covid pode estar para chegar ainda com mais força” atenta João Santos.


Para que se deixem de viver situações como as de Ana, Manuel, António e Maria e tantas outras que o JA ouviu relacionadas com tempos de espera, atrasos no envio de relatórios médicos e outros documentos administrativos, inoperacionalidade dos equipamentos, listas de espera para fazer exames, falhas de referenciação entre o SNS24 e as unidades de saúde da região, falta de transporte para os doentes, diminuição de consultas de especialidades, urgências em condições degradantes e piores cuidados de saúde é imperativo pensar o nosso SNS com seriedade, proteger as pessoas e criar novas estratégias, tal como propõe Nuno Sérgio Branco.


Para dar uma melhor resposta assistencial aos utentes da região, Nuno Sérgio Branco identifica a promoção da saúde e a prevenção da doença através do investimento nos cuidados de saúde primários para a aliviar a pressão hospitalar, a consolidação da rede de continuados, a integração entre os serviços do SNS, a fixação e a contratação de profissionais como algumas das medidas necessárias para devolver dignidade ao SNS, aos seus profissionais e acima de tudo aos seus utentes.

Joana Pinheiro Rodrigues

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