ENTREVISTA

“Estudantes devem vir à Universidade só para ter aulas”

A cumprir o seu primeiro mandato como reitor, Paulo Águas, 56 anos, fala sobre o início do ano letivo e como está a Universidade a lidar com a pandemia. E das praxes. Mas fala também do aumento-recorde das entradas de alunos, da dificuldade de alunos e famílias em encontrar alojamentos e da queda do número de estudantes universitários

JORNAL do ALGARVE (J.A.)Quais as novidades deste ano letivo relativamente ao convívio entre a comunidade universitária e a pandemia?
Paulo Águas –
Este ano tivemos que impor a obrigação de máscaras em todos os espaços cobertos, dispusemos 500 dispensadores de álcool gel fixos à porta das aulas. Temos separadores feitos para evitar cruzamentos dos estudantes. Estamos a pedir aos estudantes que passem o menor tempo possível nas instalações, só para ter aulas. Limitámos os espaços nos bares. Nas cantinas também.


J.A. – E nas aulas de desporto, e nos laboratórios, haverá cuidados cuidados?
P.A. –
Aí haverá adaptações. Algumas serão adaptações de metodologias de ensino com recurso a vídeos, sempre para garantir o cumprimento das regras em vigor de distanciamento físico e de proteção dos estudantes. A nossa estimativa é que no início do ano letivo vamos ter 20% de aulas remotas, sobretudo para os anos que não o primeiro. O primeiro é tudo presencial, os outros anos algumas teóricas serão dadas remotamente, o que nos obrigou a uma reorganização de horários de forma a que os alunos tenha apenas algumas aulas remotas para não terem que vir às instalações.


J.A. – Há planos de contingência e medidas preventivas especiais?
P.A. –
Temos os nosso plano de contingência, as nossas salas de isolamento preparadas, esperemos que não seja necessário serem utilizadas. Temos os nossos pontos focais em todos os edifícios e sabemos o que fazer, caso algum estudante revele sintomas. Levá-lo à sala de isolamento, contactar a linha Saúde 24, o delegado de saúde. O que queremos é que haja muita responsabilidade nos comportamentos dos estudantes. Estou convencido que a universidade é um local seguro para os estudantes, professores e funcionários. A existência de um foco num estudante pode pôr em causa todos os alunos da sala de aula, mas também a própria faculdade. Todas essas possibilidades se colocam e estão pré-definidas, mas serão vistas caso a caso com a autoridade de saúde. O que todos desejamos é que não haja casos, mas o que admitimos é que, a surgirem casos, não serão casos detetados a partir da Universidade, não será um estudante que sentiu-se mal numa sala de aula, foi à zona de isolamento e a partir daí a linha de saúde mandou fazer teste e deu positivo. O mais provável contudo é nós sermos contactados pela autoridade de saúde a dizer que há um caso positivo de um estudante da UAlg. E aí teremos todas as condições para despistar e saber quais as aulas que esse aluno teve, os contextos e será a autoridade local de saúde a dizer que é ou não um contacto de risco e se é ou não necessário isolar a turma.


J.A. – Não haverá tantos estudantes em simultâneo numa sala de aula?
P.A. –
As mesas que tinham dois estudantes passam a ter um estudante. Para dar segurança aos estudantes, em todas as salas de aula nós temos afixada a lotação máxima. Aqui o contexto é diferente do ensino secundário, onde os alunos estão sempre dentro da mesma sala e têm todos as mesmas disciplinas. Aqui não. Há disciplinas de opção e disciplinas comuns entre cursos. Tentamos que os alunos mudem o menos possível de sala de aula. Mas teremos sempre menos estudantes nos campae do que nos anos anteriores.


J.A. – Quanto às praxes, houve alguma diretiva da reitoria?
P.A. –
Temos vindo a conversar com os estudantes, a Associação Académica é uma estrutura informal que regula atividades das praxes. Temos vindo a aguardar, houve conversas, sensibilizações. E temos o compromisso de que não haverá praxes. Temos um regulamento interno que sanciona atividades praxísticas. Se elas ocorrerem, serão alvo de processos disciplinares e serão imediatamente bloqueadas.


J.A. – Mas porque não proibiu, pura e simplesmente?
P.A. –
Era muito fácil para o reitor da Universidade do Algarve, há duas semanas, ter publicado um despacho a dizer que estavam proibidas as praxes. Nós não fomos por esse caminho. Nós conversámos com os estudantes. Os estudantes são responsáveis, em particular os dirigentes, e termos uma decisão dessas não era pedagógico. Devem ser os estudantes a tomar as boas decisões. Não há pressão da nossa parte, mas se porventura sentirmos que os estudantes não tomaram as boas decisões nós teremos depois que atuar de uma determinada maneira. Se eles tomarem boas decisões terão todo o nosso apoio.


J.A. – Pode-se dizer que a UAlg está na linha da frente do combate ao covid-19?
P.A. –
Sim, mais do que investigação, estamos na linha da frente do combate à covid-19. O centro académico, que é um consórcio da UAlg e do Centro hospitalar universitário do Algarve, conhecido como ABC, é uma referência nacional, esteve na linha da frente da resposta, dinamizou muitos outros centros espalhados pelo País. E isso deixa-nos muito satisfeitos. Só foi possível dar essa resposta porque a UA ao longo destes anos adquiriu um conjunto de conhecimentos e de competências que pôde transferir para o combate à covid, através do aconselhamento, da realização de testes. E apoiamos não só o Algarve como o Baixo Alentejo diretamente e indiretamente em muitos centros por esse País fora.

João Prudêncio

Crise “rouba” alunos estrangeiros

A Universidade do Algarve, atualmente com cerca de mil alunos estrangeiros, está a começar uma “travessia do deserto” enquanto universidade internacional, reconhece o reitor Paulo Águas, quantificando em 10 a 20% a quebra de alunos estrangeiros face ao ano letivo passado. A crise pandémica e consequentes dificuldades em viajar, sobretudo em viagens transcontinentais, explicam as previsíveis quedas.


No ano letivo que agora começa regista-se, para já, uma quebra de um terço no recrutamento de novos alunos. Eram cerca de 300 o ano passado e este ano passaram para 200.

“Podemos ter menos 200 estudantes, pois além dos alunos de primeiro ano alguns dos outros poderão não renovar a inscrição porque regressaram ao Brasil e não têm condições para voltar”, afirma, observando que cerca de metade dos estrangeiros a estudar na instituição são brasileiros.


Águas enfatiza que a instituição “vai interromper a aproximação ao ano cruzeiro, eventualmente ter menos 150 a 200 do que os mil do ano passado, mas só lá para o final do ano é que saberemos com certeza”. E recorda que, da forma como a “torre de babel” algarvia estava a crescer, se previa para este ano mais 100 a 200 alunos estrangeiros, a juntar aos mil existentes, o que dá a noção do efeito da crise pandémica na vinda de gente de além-fronteiras.


J.P.

Alojamento Local de portas abertas por 240 euros/aluno

Em resposta ao maior aumento do número de alunos candidatos ao ensino superior nos últimos 20 anos, a Universidade do Algarve chamou os operadores de Alojamento Local (AL), este ano a braços com a falta de turistas devido à crise pandémica.
Cerca de uma dezena de operadores já manifestaram o seu interesse em participar, o que permitirá um reforço de até 170 camas, disponibilizadas a preços regulados, valor que não poderá ultrapassar os 241,35 euros por estudante, diz a UAlg, observando que a plataforma se encontra ainda em atualização, estando aberta a outros operadores de AL interessados em integrar a iniciativa.


“O que fizemos foi contactar um conjunto de operadores locais do alojamento local e convidá-las a estabelecer um protocolo com a UAlg, desenhado pelo Ministério, que permite que esses operadores mantenham as duas atividades, alojamento para turistas e para estudantes, o que não era possível antes”, disse ao JA o reitor Paulo Águas.


Reconhecendo “algumas dificuldades” na obtenção de alojamento para estudantes neste início de ano letivo, o reitor sustenta que a situação não é muito diferente dos anos anteriores e manifesta-se convicto de que “isto acaba por se ajustar”.


“Com a particularidade de termos menos alojamento turístico e há operadores de alojamento local que estão a transferir camas turísticas para estudantes”, observa, atribuindo as dificuldades atuais ao facto de os resultados das candidaturas saírem próximo do início das aulas. “Se as famílias soubessem com um mês de antecedência que iam ficar num determinado local, tudo funcionava de outra forma”.

O responsável máximo da Ualg assevera que situação mais crítica da falta de alojamentos em Faro e cercanias terá ocorrido há dois ou três anos atrás. “A construção esteve parada muitos anos. Entretanto surgiram mais fogos em Faro, em 2018, 2019 e este ano. Também temos menos procura turística e olhando à procura e à oferta estão reunidas as condições paraque não ocorram aumentos de preços no alojamento para estudantes”. Nos acordos com os empresários de alojamento local a câmara exige um 241,35 euros por estudante.


Os Serviços de Ação Social da Universidade do Algarve dispõem de 9 Residências Universitárias, com 533 camas, destinadas aos estudantes de licenciatura e mestrado.

J.P.

Ficaram 117 vagas por preencher

A Universidade do Algarve foi este ano umas das instituições universitárias que mais cresceu, atingindo o dobro da média nacional, mas ainda assim ficaram por preencher 117 vagas, disse ao JA o reitor da Universidade do Algarve, observando que, contudo, há menos 100 vagas não preenchidas do que no ano passado.


Os cursos que este ano não preenchem todas as vagas são agronomia, engenharia civil e alguns cursos para as áreas educativas.


Face ao aumento significativo do número de candidatos, o Ministério permitiu às instituições transferir vagas não ocupadas de outros contingentes, nomeadamente do estudante internacional para o Concurso Nacional de Acesso (CNA). A UA tinha 1475 vagas, conforme a Ualg indicou em junho à tutela. Em setembro, face ao aumento das candidaturas, anunciou um reforço de 245 vagas. Ficou então com 1720 vagas, das quais preencheu 1603.


Mas a grande vitória deste ano foi o aumento do crescimento face ao ano passado: a UAlg atinge no próximo ano letivo o número mais elevado de candidatos colocados na 1ª fase do Concurso Nacional de Acesso ao Ensino Superior dos últimos 20 anos, com um crescimento quase duas vezes superior em relação à média nacional, anuncia a instituição no seu site, no dia em que são divulgados os dados das colocações a nível nacional.


De acordo com os resultados da 1.ª fase do Concurso Nacional de Acesso ao Ensino Superior de 2020/21, recentemente publicados, a UAlg volta a registar um crescimento na procura, com 1592 colocados (na prática, são 1603, devido aos empates de nota, em que entram os alunos empatados), mais 361 (+29%) face a 2019/20. A nível nacional o aumento do número de colocados é de 15%.


O Concurso Nacional de Acesso representa 75% do total de acessos. Os outros contingentes são o concurso internacional, que este ano reduziu de 300 inscritos para 200 e os maiores de 23 anos, que são mais de uma centena. Juntam-se-lhes um contingente dos titulares de cursos técnicos superiores profissionais e, este ano, um concurso para os estudantes do ensino secundário da dupla certificação. No total representam os 25% remanescentes.


Curiosamente, as origens geográficas dos estudantes entrados este ano não mudaram muito, segundo disse ao JA o reitor da universidade: “No passado já temos sempre dois terços do Algarve e um terço de fora do Algarve. O que poderia acontecer é que este ano, face a esta situação atípica, ainda seriam mais do Algarve. Mas a proporção dos de cá e de fora é igual. Não aumentou a nossa dependência em relação ao Algarve, nós não deixámos de ter candidatos do resto do País, o padrão da procura manteve-se, apesar da pandemia. Continuamos a ter dois terços Algarve e um terço resto do País”, afirma Paulo Águas.


J.P.

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