Falhas no transporte colocam doentes renais “em risco de vida”

O presidente da Delegação Regional da APIR falou em exclusivo com o Jornal do Algarve

A Delegação Regional da Associação Portuguesa de Insuficientes Renais (APIR) denunciou esta semana a ocorrência de falhas no transporte de doentes hemodialisados na região.

Octávio Escolástico, presidente da Delegação Regional da APIR, disse ao JA que, “na semana passada, havia pessoas em risco de vida por causa desta situação que se tem vindo a agudizar” devido à recusa de transporte de doentes pelas empresas que prestam esses serviços, devido ao alegado baixo preço pago por quilómetro percorrido.

Faro e Tavira “estão numa situação caótica”, alerta o responsável. 

A APIR adiantou ao JA que as anomalias têm sido “recorrentes” e que se está perante “um cenário de risco de vida”, não existindo qualquer resposta nas diligências junto da Administração Regional de Saúde do Algarve (ARS) Algarve, apesar de “sucessivas queixas e de pedidos de reunião dirigidos ao presidente da ARS, Paulo Morgado”. 

Contacto pelo JA, a ARS, enquanto responsável pelo transporte de doentes hemodialisados, esclarece que utiliza “a plataforma SGTD – Sistema de Gestão de Transporte de Doentes para possibilitar o transporte dos utentes para as sessões de hemodiálise”. A Cruz Vermelha é um dos exemplos das entidades que transportam estes doentes.  

Neste sentido, a ARS diz que “as empresas de transportes registadas no SGTD, devido a limitações de recursos humanos e meios, nem sempre conseguem dar resposta às requisições efetuadas, sobretudo numa época do ano em que, pelo aumento da população, aumenta a necessidade de transporte urgente na região”. Por isso, “nestas ocasiões a ARS Algarve recorre a empresas de transporte fora da rede SGTD, mas igualmente autorizadas/certificadas para transportar doentes”, reforçam.

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Octávio Escolástico disse ao JA que, no caso dos doentes transplantados, foi a partir de 2012 que o transporte passou a ser da responsabilidade dos hospitais. Já no caso dos doentes não transplantados, é a ARS que assume o transporte, “quer para as sessões de hemodiálise, quer para os doentes irem a Lisboa fazer a construção de acessos vasculares e também às consultas de pré-transplante”, explica. 

No Algarve, segundo informações do presidente da APIR, existem três clínicas de diálise, denominadas ‘Nephrocare’ que providenciam tratamentos de hemodiálise, distribuídas pelas cidades de Portimão, Faro e Tavira. Todas elas pertencem ao Grupo Fresenius Medical Care. Segundo a APIR, aos doentes renais que contraíram covid-19 “tem sido negado o transporte para as sessões de hemodiálise, o que em dois casos, implicou que esses doentes fossem reencaminhados do urgência para o Hospital de Faro, correndo risco de vida”, denunciam. Por outro lado, verificam-se “problemas nos transportes para as consultas de pré-transplante e construção de acessos vasculares em Lisboa, o que não é compreensível”, refere o presidente.

“A ARS está a falhar porque o valor do combustível é 51 cêntimos o quilómetro, valor que remota a 2012. Mas agora há uma promessa para passar para 58 cêntimos o quilómetro. O que é estranho é que há empresas privadas que estão a cobrar a 49 cêntimos o quilómetro. Ora a ARS paga 51. As empresas privadas de doentes não urgentes cobram mais baixo e só são convidadas a fazer transportes esporadicamente, quando os outros falham. É isto que não se compreende”, aduz. 

O responsável regional explica que foram “os diretores clínicos que vieram alertar a APIR para a gravidade da situação, na qual podem morrer pessoas. A partir desse momento, começamos a mexer-nos (…) mas a verdade é que a ARS não tem condições para resolver o problema”, lamenta, alegando que a autoridade de saúde “não está a recorrer aos privados que podem garantir o serviço. A própria Cruz Vermelha está a recusar transportar estes doentes”, denuncia. 

Segundo Octávio Escolástico, existem cerca de 100 doentes renais oriundos dos vários pontos do Algarve. “Aqui o que está em jogo é a vida das pessoas. A hemodiálise tem que ser feita, imperativamente dia sim, dia não. Não pode haver falhas independentemente da condição dos doentes”, contesta. 

Segundo a APIR, aos doentes renais que contraíram covid-19 “tem sido negado o transporte para as sessões de hemodiálise, o que em dois casos, implicou que esses doentes fossem reencaminhados do urgência para o Hospital de Faro, correndo risco de vida”, denunciam. Por outro lado, verificam-se “problemas nos transportes para as consultas de pré-transplante e construção de acessos vasculares em Lisboa, o que não é compreensível”, refere o presidente.

No que toca às condicionantes dos doentes covid, a ARS clarifica que “uma vez que o transporte dos doentes é feito em grupo, perante casos positivos de covid-19, é exigido um transporte individual desse utente”. Esta situação “exige determinadas restrições no acompanhamento desse utente, o que pode gerar constrangimentos nos serviços reduzindo, desta forma, a capacidade de resposta das empresas de transporte de doentes”, justificam. Neste sentido, o presidente da Delegação Regional da APIR explica que “o Hospital de Faro só tem uma sala preparada para receber doentes crónicos renais com covid”, o que “nunca poderá ser uma opção viável porque há muitos doentes e este é um tratamento que exige muita preparação, tanto da parte dos doentes como dos prestadores”. 

“Consciente destes constrangimentos, a ARS Algarve procura dar sempre resposta a todas as solicitações dos utentes nestas condições”, esclarece ao JA.

Nas palavras de Octávio Escolástico, a solução pode passar pela “entrega do serviço de transporte dos doentes às clínicas prestadoras dos serviços de hemodiálise, ou seja, uma descentralização do serviço para os sítios que têm toda a informação sobre os doentes”. Contudo, na sua visão, a ARS “não tem a sensibilidade para entender estas questões”, conclui.  

Cristóvão Norte, presidente do PSD Algarve já veio exigir “soluções para o problema”, sublinhando que “esta é uma situação intolerável e urgente resolver”. 

Joana Pinheiro Rodrigues e João Prudêncio

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