Loulé vai ser líder europeu no uso de desfibrilhadores

Organização sem fins lucrativos que resulta do lançamento do novo curso de medicina no Algarve, o Algarve Biomedical Center (ABC) é um manancial sem fim de projetos na área da saúde. Com o concelho de Loulé como pano de fundo pioneiro, o ABC prevê instalar ali os seus dois edifícios operativos dedicados à gestão de 17 projetos. Um deles é a distribuição pelo concelho de Loulé de 200 desfibrilhadores e a formação dos seus operacionais. Um projeto inovador no País e na Europa, garante o presidente do ABC.

Uma rede de 200 desfibrilhadores automáticos e cerca de 5000 pessoas formadas para poderem utilizar aqueles aparelhos (25 por cada desfibrilhador) são os números que vão fazer do concelho de Loulé, dentro de dois anos, o município com uma melhor rede de suporte básico de vida em toda a Europa.

Segundo disse esta semana ao JA Nuno Marques, presidente do Algarve Biomedical Center (ABC), responsável pela implementação do projeto, que conta com o apoio financeiro da Câmara Municipal de Loulé, os aparelhos – que serão adquiridos e mantidos com recursos financeiros da autarquia – irão ser ativados de forma faseada: 60 deles estarão no terreno nos escassos 30 dias que faltam para o fim deste ano (alguns já lá estão) e os restantes 140 até ao fim de 2021.

Aquela distribuição de desfibrilhadores no concelho com maior extensão territorial do Algarve fará de Loulé, que tem 70.600 habitantes, um território com um desfibrilhador para cada 350 habitantes, um número inovador a nível nacional e europeu, revelou Nuno Marques.

Nuno Marques

O cardiologista revelou que naquele concelho ocorrem uma média de 150 paragens cardíacas por ano e em toda a região do Algarve 1500 mortes súbitas por ano. “Se conseguirmos salvar 10% dessas pessoas, ou nem que seja uma só uma vida, já valeu a pena”, afirmou.

Para enfatizar a importância dos aparelhos, Nuno Marques observa que, num quadro de colapso cardíaco, são fundamentais os 10 minutos seguintes à paragem cardiovascular e a existência de um aparelho de suporte básico de vida pode constituir a diferença entre a vida a morte. “Cerca de 10 minutos depois do início do acidente cardíaco as hipóteses de reversão do quadro e de salvamento aproximam-se do zero”, afirma.

Mas há um outro elemento diferenciador neste plano a que a Câmara de Loulé aderiu: será o primeiro projeto congénere do País em que elementos da população com formação adequada que estejam mais longe do centro mais próximo de distribuição de ambulâncias do INEM ou dos bombeiros vão estar geolocalizáveis pelo telemóvel e ativáveis pelo CODU [Centro de Orientação de Doentes Urgentes], consoante a sua proximidade.

“Isso é inovador. A ativação da população é uma primeira rede de auxílio, estamos a envolver a população, a dar formação em suporte básico de vida, e isso é inovador no País e até a nível europeu”, sustenta Nuno Marques, para quem se está a criar uma nova rede, o “pré-pré-hospitalar”. “Temos uma rede pré-hospitalar do INEM e agora será antes disso. Isto nunca foi feito no País nem desta forma”, insiste.

Levar desfibrilhadores de Vilamoura ao Ameixial
Segundo o presidente da Câmara de Loulé, Vítor Aleixo, já foi dada formação a 700 desses elementos da população (num total de 1000 previstos para este ano), que estarão aptos a servir de primeira rede de auxílio antes da chegada dos médicos da viatura de emergência médica (VMER) ou da ambulância. “Foi uma aposta do município e esperamos que seja uma aposta ganha”, disse o autarca esta semana ao JA.

Os desfibrilhadores serão colocados em pontos estratégicos de afluência de pessoas, como o próprio centro académico, todas as escolas do concelho, a proteção civil, bombeiros, centros de saúde, Polícia Marítima, Instituto de Socorros a Náufragos, Instituições Públicas de Solidariedade Social (IPSS) e outros.

“Será o primeiro concelho do País em que, dentro das viaturas da GNR, vão estar desfibrilhadores e todos os militares da GNR terão formação adequada para os operar”, afiança Nuno Marques.

Vítor Aleixo

Mas num concelho tão extenso como Loulé (763,67 quilómetros quadrados), é fundamental que a primeira rede se estenda às povoações mais remotas, como Alte, Ameixial, Querença, Salir, ou Tôr. É aí que, regra geral, se fará sentir mais a necessidade desses aparelhos e respetivos operadores num contexto “pré-pré-hospitalar”. Há menos pessoas do que no litoral mas é maior o risco para cada acidentado.

Responsável pela formação a todos estes homens e mulheres, o Algarve Biomedical Center é uma organização que junta três polos: o Centro Hospitalar Universitário do Algarve, o polo de investigação da Universidade do Algarve (Clínica Biomedical Research) e o Departamento de Ciências Médicas e Medicina, que brevemente vai passar a Faculdade de Medicina. O ABC contempla um investimento total de 24 milhões de euros e, entre inúmeros projetos, tem também o de trazer mais médicos para o Sul do País.

Assumir o Turismo clínico sem esquecer a população local
O ABC (Centro Biomédico do Algarve em português) foi criado de 2016 e desde logo propôs a Loulé a colaboração em várias áreas ligadas à saúde: “A Câmara de Loulé tem definido no seu âmbito a melhoria dos cuidados de saúde e da população. O ABC propôs à câmara a localização dos projetos em Loulé, em edifícios já estão em fase de arquitetura e com início de construção previsto para o próximo ano”, esclarece o presidente do Centro Biomédico.

Orçamentados em 16 milhões de euros (oito milhões para cada um), aqueles edifícios, financiados pela Câmara com recurso a financiamento europeu, ficarão localizados em Loulé e Vilamoura. Em fase final de projeto de arquitetura, deverão ser lançados concursos para a sua construção no próximo ano e prevê-se que em 2022 estarão prontos. Neles ficarão instaladas 17 estruturas diferentes.

O edifício de Vilamoura terá um meeting center para reuniões científicas de pequena e média dimensão. Nele existirá ainda um Centro Active Life, com 1500 metros de área: Terá um grande centro de reabilitação cardíaca, respiratória e ósteoarticular que vai ser posta ao serviço da população, no quadro do centro europeu de envelhecimento ativo do Algarve, integrado na Rede Europeia. Assumirá uma vertente turística, virada para idosos estrangeiros que vêm fazer a sua reabilitação. “Mas terá também um serviço de reabilitação virado para o atendimento à população através do SNS. Vamos abrir para o SNS o mesmo serviço diferenciado que vamos ter para os turistas”, faz notar o líder do projeto.

Já o edifício de Loulé estará mais virado para a pesquisa científica, contando com vários organismos, como será o caso do Instituto Português do Sangue e Transplantação (IPST), que ali criará uma seroteca nacional [banco de soro do sangue].

Criação de 200 postos de trabalho em full time
De resto, Nuno Marques faz notar que o ABC tem um enquadramento nacional e contemplará serviços exclusivos no País. Isto, independentemente de fazer parte de uma rede de oito organismos congéneres, de norte a sul do País, um por cada região onde existe faculdade de medicina. Por exemplo, o futuro edifício de Loulé acolherá o Banco Nacional de Células do Cordão Umbilical, atualmente sediado no Hospital de São João, no Porto, mas que será deslocalizado.

Estão também a ser desenvolvidos projetos com o Infarmed e a Direção-Geral da Saúde e ainda iniciativas com instituições externas ao Estado. “O Instituto Nacional Dr. Ricardo Jorge desenvolveu connosco o centro de investigação entomológica [doenças transmitidas pelos mosquitos, como o paludismo, dengue e zica] e temos previsto um biobanco de tecidos e células a ser usados na investigação”, enuncia Nuno Marques.

Acrescenta que aquela organização sem fins lucrativos tem já um total de 100 médicos e enfermeiros a trabalhar em regime de part-time. Prevê-se a criação de 200 postos de trabalho em full time no concelho quando os edifícios estiverem em velocidade de cruzeiro.

Mas voltando ao lado mais visível da presença do ABC no terreno, já está a ser implementado um projeto de Literacia informática para a Saúde, que visa ajudar as populações mais excluídas do ponto de vista informático a utilizar a aplicação My SNS, para usos mais burocráticos que dispensam a consulta presencial junto de um clínico.

Marcar uma consulta, pedir uma receita médica de rotina, ou fazer outras utilizações dos serviços de saúde, com recurso a um computador ou telemóvel, fica assim ao alcance dos utentes mais idosos ou iliteratos. O segredo é a formação de pessoas que fazem a “ponte” entre esses utentes e a aplicação informática.

Doze operadores para cada desfibrilhador em Castro Marim
”Fizemos este protocolo com os serviços partilhados do Ministério da Saúde. O teste piloto está a ser implementado agora em Loulé e depois estender-se-á ao Algarve todo. Estamos a ensinar as pessoas a usar as aplicações, com recurso a pessoas que estão a ser formadas para ajudar esses utentes do SNS. Estamos no terreno a fazer isto há 1 mês e meio. Isto é único no País”, enfatiza Nuno Marques.

Além dos aspetos práticos, o entrosamento com a população “ajuda a fortalecer laços sociais”, sustenta o mesmo responsável.
Aqueles dois projetos estender-se-ão depois para outros concelhos do Algarve, sendo os de Silves e Castro Marim, neste momento, os mais adiantados no processo.

Vítor Rosa, vereador da Proteção Civil da Câmara de Castro Marim, antevê que o processo dos desfibrilhadores vai demorar algum tempo a chegar ao seu concelho, mas que prevê tê-lo no terreno ainda em 2020. “Em junho já se devem definir a localização dos equipamentos. Sabemos onde podem ficar mas de uma forma ainda empírica. Praias, aglomerados urbanos, escolas, instituições. Não devemos ir além dos seis equipamentos. Mas há um estudo em curso que pode dar um número e localizações diferentes”, disse o vereador ao JA.

Admite que no seu concelho o número de desfibrilhadores poderá não ir além dos seis, mas no total o investimento previsto rondará os 25 mil euros. Cada equipamento custa cerca de 500 euros, a que acresce o custo da utilização (150 euros por ano) e as baterias.

Mas é a formação, ministrada pelo ABC, que leva a fatia de leão orçamental: cada equipamento deverá contar com 12 pessoas formadas para com ele operar. Em seis equipamentos previstos para Castro Marim (número que poderá subir), serão formados um total de 72 operacionais. Muito longe dos 5000 de Loulé.

João Prudêncio

João Prudêncio

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