O difícil caminho do Egito em direção à democracia

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Ex-assistente de Youssef Chahine e hoje com 60 anos, o cineasta egípcio Yousry Nasrallah tem um percurso político escrito na urgência. Apresentou em Cannes, a concurso, um “After the Battle” que olha para a sociedade atual do seu país, realizado ainda sob o calor do momento. E não o faz da maneira mais óbvia.

O ponto de vista do filme centra-se em Mahmoud (Bassem Samra, ator recorrente no trabalho do cineasta), um guia turístico do bairro das Pirâmides que, à falta de trabalho (o sector do turismo paralisou desde que o país entrou em revolta) aceitou, a soldo dos homens de Hosni Mubarak, ser um dos “Cavaleiros de Tahrir” que, a 2 de fevereiro de 2011, investiram na famosa praça egípcia contra os manifestantes.

Violência

Acontece que Mahmoud, nesse dia, foi humilhado e espancado pelos manifestantes. Pior: correm no YouTube imagens degradantes que fazem dele um símbolo antirrevolucionário. Desde então, foi ostracizado pelo seu bairro e a sua família também está a pagar as favas. Um ano depois do início da revolução, conhece Reem, uma jovem egípcia emancipada que trabalha em publicidade no bairro moderno de Zamalek. Reem sente-se atraída sexualmente por aquele pobre homem casado, pai de filhos e de uma classe social muito inferior à sua. Ela acredita que o caminho para a democracia passa pela reintegração dele na sociedade. Ajuda-o sem complacência. Mas a democracia é ainda um caminho longo a percorrer na terra dos faraós.

“After the Battle” decide observar a Revolução, não pelos olhos dos vitoriosos (que são ainda uma massa informe e desorganizada, à escala do país), não pelos olhos dos vencidos (até porque, se Hosni Mubarak caiu, os efeitos da sua ditadura de 30 anos estão longe de ruir), mas através de um homem que é um ‘dano colateral’ da revolução. Mahmooud procura salvar a sua pele: não fala Yousry Nasrallah, afinal, em nome de 80 milhões de pessoas?

Uma velha história que se repete

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Nasrallah mistura planos de cinema e imagens de arquivo anónimas, mistura a sua ficção na atualidade do seu país, que é um documentário em evolução permanente. Interroga tanto as dificuldades das classes desfavorecidas, com falta de consciência política porque mal têm para comer, como as inúteis lições de sindicalismo das classes abastadas, que assim procuram confortar o cínico conforto da sua boa consciência. Esta é, afinal, uma velha história. É também um terreno cinematográfico perigoso, permeável à retórica, no qual Yousry Nasrallah tenta erguer uma linha de reflexão. Que teve as suas consequências: na manifestação de 8 de julho de 2011, o cineasta teve de interromper as filmagens. Foi insultado e agredido. Aconteceu-lhe o mesmo que à sua personagem, Mahmoud.

Francisco Ferreira (Rede Expresso)
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